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A vida é curta

Numa conversa de um ano atrás com seu amigo e conterrâneo Juan Villoro, o contista, ensaísta e tradutor mexicano Ilan Stavans confessou, numa boa, não ler mais a produção literária recente. Em seu blog na New York Review of Books, o britânico radicado na Itália Tim Parks postou esta semana um comentário que busca dar resposta satisfatória a esta provocação: "Por que ler os novos romances?". Volta e meia deparo com reparos do gênero, indisfarçáveis manifestações de descrença na relevância da literatura contemporânea, de impaciência para investir tempo e atenção em intrigas e personagens que de pronto não nos cativam e da quase certeza de que tudo aquilo já foi melhor explorado por outros autores.

Sérgio Augusto , O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2014 | 02h05

Que motivos e carências nos levam a dedicar horas, dias, semanas, até meses, à saga de uma família fictícia, disfuncional e distante, por exemplo? Esse é um dos sortilégios da literatura -nos fazer interessar por vidas alheias, nem sempre atraentes - ao qual nos rendemos cada vez menos à medida que a idade avança, a curiosidade diminui e a vontade de revisitar consolidados prazeres parece aumentar na mesma proporção das novidades que à nossa volta vamos empilhando.

Stavans considera o gênero novelístico "vazio". Quando abre uma exceção, logo se sente como Quixote ao ver os fios que manipulam os marionetes de Mestre Pedro; e, desanimado, desiste de seguir em frente. Não é velho, tem 53 anos, mas leu o bastante para perceber às primeiras páginas e mesmo às primeiras linhas que um livro de não ficção poderá lhe trazer maior proveito. Prefere as formas de menor dimensão, como o conto, a crônica, a anedota, "até mesmo a epígrafe", que lhe tomam menos tempo de leitura e diversificam seu deleite. "Sei que o romance justificou as vidas de um sem-número de autores, do século 16 até hoje, mas não estou seguro de que mantenha o mesmo valor", desabafa o conceituado tradutor de Borges, Neruda e Rulfo para o inglês.

Por que comprar novos romances, ainda mais agora que os clássicos estão disponíveis a preços ridículos no formato eletrônico?, provoca Tim Parks, que recentemente baixou de graça pela internet a versão original de Confissões de um Italiano, de Ippolito Nievo, um erudito calhamaço sobre a Itália dos séculos 18 e 19. Gastei a bagatela de US$ 3.39 pela versão Kindle das obras completas de Flaubert e Balzac, em francês, mas não ousaria eliminar do meu horizonte de leituras todas ou quase todas as novidades com que as editoras semanalmente abarrotam as livrarias. Vontade não me falta (o lixo predomina), mas aí me lembro, como Parks se lembrou, de um ensaio de Virginia Woolf, escrito há quase 90 anos, em que ela defende, de forma persuasiva, a leitura de escritores contemporâneos.

Um dos prazeres de ler ficção contemporânea, argumenta Woolf, é nos forçar a exercitar nossa capacidade de julgamento sem o peso de opiniões estabelecidas, a avaliar se determinada obra é boa ou não a partir de nosso próprio juízo, seguindo nossos instintos. Não aceitar conselhos era o único conselho sobre leitura que ela se permitia dar a outra pessoa. "A independência", frisou, "é a qualidade mais importante que um leitor pode possuir", optando pelo enfático "possess" em vez do banal "have". O que ela, no fundo, queria dizer é que os livros novos têm (ou possuem) o condão de nos expor ao não familiar, de oferecer prazeres que ainda não aprendemos a usufruir e negar gratificações pelas quais, acomodadamente, esperávamos, podendo, inclusive, operar uma mudança radical em nosso gosto.

O que me leva a outra questão também ventilada no papo de Stavans com Villoro, mas não abordada por Parks: o limite de tolerância vis-à-vis qualquer livro. Em miúdos: é lícito (ou intelectualmente correto) abandonar uma obra pela metade ou mesmo nas primeiras páginas? Com e sem culpa, tanto faz.

Não apenas sou a favor como amiúde exerço meu direito de suspender a leitura de um livro e trocá-lo por outro, usando o mesmo argumento que invoco ao largar um filme durante a projeção (para Vinícius de Moraes, um sacrilégio): a vida é curta. Se você não está obrigado a resenhá-lo, criticá-lo, nenhuma lei ou convenção o obriga a suportá-lo, firme, estoicamente, até o final. O que não significa que uma nova oportunidade esteja fora de cogitação, sobretudo se desconfiar que fui eu o maior ou único responsável pelo primeiro desencontro. Com romances canonizados, a redenção é mais tranquila. Ninguém o olhará com espanto se você disser que está lendo A Montanha Mágica. Já se anunciar que irá ler um best seller que há muito deixou de ser tema de conversa, talvez não tenha mais com quem dialogar.

Não fui além das primeiras 50 páginas de O Nome da Rosa, embora fosse um velho admirador do Umberto Eco semiólogo e crítico cultural desde o início dos anos 1960, quando comprei seus primeiros ensaios, editados pela Bompiani. Meu limite atual, para leituras descompromissadas, oscila entre 400 e 500 páginas. Mais generoso (ou perdulário) não consigo ser. E mais implacável (ou frugal) seria se pertencesse à geração alfabetizada em pixels, se bem que parte dela aprecie o caudaloso Thomas Pynchon.

Os últimos romances com mais de 500 páginas que li de fio a pavio, sem obrigação, foram os de Jonathan Franzen, o taludo 2666, de Roberto Bolaño (que a rigor são cinco romances numa única lombada), e Vício Inerente (Pynchon, cujas 459 páginas o enquadram nessa categoria). Custei um pouco a atravessar os quatro primeiros capítulos de Homem que Amava os Cachorros, de Leonardo Padura, por já saber tudo o que gostaria de saber sobre Trotski, via Isaac Deutscher. Apesar de minha obsessão pela 2ª Guerra Mundial, faltou-me coragem para encarar as quase mil páginas de As Benevolentes, de Jonathan Littell. A restrição de uma amiga foi a desculpa em que me apoiei para deixar O Pintassilgo (792 páginas), de Donna Tartt, na salmoura; prova de que o conselho de Virginia Woolf afinal me entrou por um ouvido e saiu pelo outro.

Como a Amazon, nossa Grande Irmã literária, está de olho na gente, já inventaram um aplicativo para monitorar o quanto os usuários do Kindle avançam em suas leituras, com base nos trechos destacados pelo leitor, e em que ponto as abandonam. Deram-lhe o nome de Índice Hawking, em homenagem ao físico Stephen Hawking, por causa de seu best seller Uma Breve História do Tempo, que quase ninguém leu até o fim.

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