A vida dos outros por um olhar cúmplice

Avalanche de biografias no mercado provoca lançamento de ensaios sobre gênero e marca O advento de uma nova forma literária

Antônio Gonçalves Filho, de O Estado de S. Paulo

20 de março de 2010 | 08h09

Num livro recentemente lançado e essencial para se entender o gênero, O Desafio Biográfico (Edusp, tradução de Gilson Césare Cardoso de Souza, 440 págs., R$ 65), o historiador francês François Dosse diz que Claude Arnaud, autor de uma biografia de Jean Cocteau, reduziu sua atividade ao comportamento de um canibal: o biógrafo seria aquele que bebe o sangue do poeta para erigir-lhe um túmulo. Arnaud, de dez em dez anos, tem um surto incontrolável de escrever a biografia de uma celebridade. E não apenas ele. Só esta semana estão sendo lançadas pela Companhia das Letras duas biografias de escritores célebres: Rimbaud: A Vida Dupla de um Rebelde, do norte-americano Edmund White, e O Mundo Prodigioso Que Tenho na Cabeça (ou Franz Kafka: Um Ensaio Biográfico), de Louis Begley, americano de origem polonesa. A mesma editora lança ainda este ano (em novembro) Borges: Uma Vida, biografia do maior autor argentino por Edwin Williamson, da Universidade de Oxford. E, para continuar na rota latina, chega no dia 24 às livrarias (pela Ediouro) uma nova biografia do Nobel colombiano, Gabriel García Márquez: Uma Vida, do inglês Gerald Martin.

 

A lista de lançamentos poderia continuar nos parágrafos seguintes, mas bastam esses exemplos para provar que o gênero é o filão literário mais cobiçado pelas editoras. Arnaud, profissional que escreveu sobre a vida de vários autores (de Proust a Camus, passando por Faulkner), costuma dizer que esse crescente interesse do mundo editorial fez com que ficasse clara a distinção entre o historiador e o biógrafo: o último seria aquele capaz de "invadir a personalidade alheia". Tanto que uma nova forma biográfica está ganhando força junto aos escritores - e que bem poderia se chamar "bioavatar", considerando as semelhanças de vida e a empatia que movem um autor a assumir e a falar em nome do biografado. O marroquino francês Pierre Assouline, de quem está saindo no Brasil um ensaio original sobre o tema, Rosebud (Rocco), mostra, por exemplo, que tem experiência suficiente para encarar esse gênero "híbrido", entre a dimensão histórica e ficcional, que vive da imaginação do biógrafo. Experiente, Assouline, que já assinou as biografias de Georges Simenon e Henri Cartier-Bresson, é um dos três entrevistados pelo Sabático sobre as dificuldades de restituir a complexidade da vida real de um autor numa simples biografia - os outros dois são os premiados Edmund White e Louis Begley.

 

Assouline, em Rosebud, exercita seu talento minimalista recorrendo a Roland Barthes, que, nos anos 1970, cunhou o termo "biografemas", gênero que cruza a escrita romanesca com detalhes da vida dos biografados - Sade, Fourier e Loyola, no caso de Barthes, que definiu a biografia como "um romance que não ousa dizer seu nome". Em outras palavras, ao contar a vida de seus eleitos em Rosebud - do escritor inglês Rudyard Kipling ao pintor espanhol Pablo Picasso, passando pelo fotógrafo francês Cartier-Bresson -, Assouline jamais começa pela infância das celebridades. Apega-se a um objeto do biografado do qual vai beber o sangue e conta sua história a partir desse "pequeno nada que nos trai revelando-nos aos outros". O título do livro, aliás, faz referência à última palavra pronunciada pelo fictício magnata da imprensa Charles Foster Kane (Orson Welles) no filme Cidadão Kane, que leva um jornalista a investigar sua vida sem descobrir o "pequeno nada" que a revela: um trenó com o qual brincava na neve quando era uma criança pobre, do qual é abruptamente retirado para viver como milionário.

 

Assouline assume, como observou no passado André Maurois, que o biógrafo está sempre a meio caminho entre o desejo da verdade e o de se recriar por meio da vida dos outros. "A biografia não é uma ciência exata, mas bricolage literária entre a História e o romance, a crítica literária, a reportagem e a crônica policial", diz. O biógrafo seria, então, um retratista, um artista inventor como Picasso - e ele, de fato, reinventa Picasso em Rosebud, ao mostrar sua afinidade espiritual com Balzac (os dois moraram, em diferentes épocas, na mesma casa, em Paris) - e como sua pintura Guernica e o livro de Balzac, A Obra-Prima Desconhecida, se interpenetram. "O desejo de viver outras vidas por procuração, de se inventar um outro passado por meio do passado alheio, prova que não existe uma empatia desinteressada", observa Assouline, especialista em biografias intelectuais, que explicitam, segundo François Dosse, o ensejo de um envolvimento dos biógrafos com seus retratados. "Não abandono meus biografados, nem Gallimard nem Cartier-Bresson, pois eles constituem minha família de papel", concorda Assouline.

 

Nada a esconder. Então, por que não escrever sua autobiografia? "Embora se confundam, os dois gêneros não têm nada a ver um com o outro", responde o autor, contando uma história: "Um dia perguntaram a um escritor por que não escrevia suas memórias e ele respondeu que isso seria impossível, por simplesmente não ter nada a esconder." De fato, segundo o historiador Pierre Bourdieu, a biografia "não apresenta pertinência alguma". Dosse recupera um texto de Bourdieu em que ele revela o próprio itinerário, recusando-se a vê-lo como autobiografia e esclarecendo que o escreveu apenas para se prevenir contra possíveis biógrafos caçadores de celebridades, bem diferentes de Foucault - que lançou, em 1978, uma coleção (Vidas Paralelas, pela Gallimard) com biografias de anônimos destruídos, desde um hermafrodita suicida a um doente mental que passou a vida em asilos psiquiátricos.

 

Foucault prestava atenção a detalhes que escapavam aos outros. Esse, diz Assouline, é o segredo do bom biógrafo. Ninguém que passe diante de sua biblioteca parisiense deixará de notar livros de Fernando Pessoa, Proust, Gide, mas, provavelmente, passará ao largo da antiga edição que traz na capa o rosto do herói da Resistência Francesa Jean Moulin (1899- 1943), torturado pelo chefe da Gestapo em Lyon, Klaus Barbie, e morto na Alemanha. Ninguém, além de Assouline, notou que o cachecol de Moulin - o de sua mais famosa fotografia - revelava mais do que talvez desejassem seus antigos biógrafos: que esse herói, desejado pelas mulheres, era homossexual. "O aspecto visual é essencial e não é sem razão que Beckett recusou meu convite para uma partida de xadrez", conta. "Ele, naturalmente, não iria me dar uma entrevista, mas respondeu que só se fosse um cego concordaria com o encontro, o que prova quanto é essencial o aspecto visual para se escrever uma biografia."

 

Jorge Luis Borges era cego, mas isso não facilitou em nada a vida de Edwin Williamson, autor da extensa biografia do escritor argentino. Williamson viu nele uma vítima do confronto entre o liberalismo europeu e o individualismo gaúcho, reduzindo-o a um menino mimado pela mãe, tímido, um obstinado romântico. Seria esse mesmo Borges? Williamson é inglês, como o biógrafo de Gabriel García Márquez, o professor de literatura latino-americana Gerald Martin, o que explica a resistência de ambos a invadir a personalidade dos dois escritores latinos. No último caso, Martin age mais como historiador, dedicando 17 anos de sua vida a investigar a vida do Nobel colombiano. Num esforço gulliveriano para escapar a interpretações simplistas, o inglês fez mais de 300 entrevistas com familiares, amigos e presidentes para compor um mosaico do autor daquele que seria, segundo Martin, o "primeiro romance verdadeiramente global do mundo", Cem Anos de Solidão.

 

Martin é pródigo em elogios e nada crítico sobre o apoio de García Márquez a Fidel Castro. De qualquer modo, mantém reservas a respeito da autobiografia do escritor colombiano publicada há oito anos, Viver para Contar. Gabo, como é conhecido, pode ter vivido para dar a própria versão de sua experiência existencial, mas não contou tudo. Tampouco Martin o fez. Apenas supõe que o papel do avô do autor que o criou, um coronel autoritário, foi além da conta, incutindo no neto um gosto exagerado pelo poder - o que explica sua adesão à ditadura castrista.

 

Interrogações. O biógrafo de Borges, respeitado em Oxford, talvez alimente as mesmas dúvidas a respeito de seu ensaio biográfico, recebido lá fora como um sério estudo sobre o conflito interior do escritor com o pai, que definiu sua vida tanto quanto a do avô de García Márquez. Deitando Borges no divã de Freud, Williamson conta que seu pai o levou a um bordel quando era adolescente, obrigando-o a fazer sexo com sua amante, o que teria provocado um trauma no escritor, homem reservado que teria sido dominado por suas mulheres. O biógrafo incorre no erro comum de confundir percurso biográfico com literário, desafiando o leitor a ler sua obra a partir de um diagnóstico médico. De qualquer modo, ainda é lícito esperar que qualquer biógrafo ofereça algum dia a biografia definitiva de Borges - ainda mais quando a abordagem psicobiográfica virou moda entre os contemporâneos, deixando muitos pontos de interrogação sobre a vida de biografados que se tornam próximos dos biógrafos.

 

Bem fizeram Edmund White e Louis Begley ao escolher para biografar escritores do passado. Prevalece neles o que Dosse chama de "imperativo da empatia", como se os intérpretes da vida alheia devessem algo de sua formação à leitura dos autores a que se dedicaram. White lembra que não foi o status de Rimbaud como anti-herói existencialista o que mais lhe atraiu na juventude, mas a tensão de um poeta dividido entre sua vida provinciana no interior da França e sua viagem ao desconhecido, como White também fez, saindo do cafundó dos EUA para Nova York. Begley, sobrevivente do Holocausto, conta como a condição de Kafka - a de um judeu cuja visão de mundo deriva de sua experiência de viver à margem - marcou para sempre sua vida.

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