Giuseppe Cacace/AFP
Giuseppe Cacace/AFP

A vida dos agentes de Le Carré

Gary Oldman está no elenco da versão classuda de O Espião Que Sabia Demais

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / VENEZA

Um bom romance de espionagem, adaptado de maneira correta, é sempre atraente. Ainda mais quando o ficcionista atende pelo nome de John Le Carré e o cineasta, no caso o sueco Tomas Alfredson, faz o seu trabalho de modo a não estragar o texto. O resultado é esse ótimo Tinker, Tailor, Soldier, Spy, mais uma reflexão ficcional de Le Carré sobre a Guerra Fria, ou o seu fim, o que dá no mesmo. Seu alter ego, George Smiley, é interpretado soberbamente por Gary Oldman. E o elenco de apoio é composto de nomes estelares como Colin Firth, John Hurt, Tom Hardy, Mark Strong e Benedict Cumberbatch. Ou seja, é um espetáculo de luxo.

Na história, Smiley está retirado do serviço (foi forçado a sair, na verdade) mas é reconduzido quando se descobre que existe um infiltrado trabalhando no coração mesmo do serviço de informações. A sua missão será encontrar o traidor entre seus ex-colegas de MI-6. Como tal, terá de se haver com amigos, ou pelo menos conhecidos dos "bons tempos" de luta. Um dos diálogos diz muito, quando um deles se refere à época áurea da espionagem, nos anos 60. O outro diz que o saudosismo não se justifica porque era um tempo de guerra. A que o primeiro responde que, pelo menos, era uma guerra boa e clara. O duplo agente trai por nostalgia, e esta não é uma hipótese improvável.

"O filme é um ensaio sobre o homem, fala de sacrifício, de solidão, de alienação e moralidade", diz Gary Oldman, na compreensão exata de que um romance de ação de John Le Carré sempre traz embutidas questões éticas da política - em tempos de paz ou de guerra. Mais ainda em guerra, quando o próprio Le Carré atuou no "serviço" e pôde observar de perto o efeito que a condição de agente traz para o ser humano que assume esse papel. Ao contrário do glamour de outros espiões fictícios, os de Le Carré são tipos comuns, usando ternos surrados, óculos fora de moda, ganham pouco e têm existência cinzenta e sem vida social. A adaptação de Alfredson para o livro que em português se chama O Espião Que Sabia Demais (1974) tem classe.

Quem diria que o atormentado Heathcliff, já interpretado por Laurence Olivier e Ralf Fiennes em versões anteriores de O Morro dos Ventos Uivantes, seria agora vivido pelo jovem ator negro James Howson? Essa subversão adicional dá ainda mais força à adaptação da escocesa Andrea Arnold para o romance de Emily Brontë, uma das peças literárias mais famosas da língua inglesa. Até agora, a transposição mais badalada é a de William Wyler, de 1939. Não se sabe se a de Arnold terá fama tão duradoura mas, de qualquer forma, foi bem comentada no Lido.

Não apenas por esta primeira ousadia de Andrea Arnold. Ela tira de uma obra literária um filme de poucos diálogos, quase nada de música, apenas uma linha de interpretação muito intensa e corporal imposta ao elenco. Modestamente, diz que não tinha nada de premeditado e que a estética foi se fazendo ao andar, como no caminhante de Antonio Machado: "Não tenho um grande plano quando começo um filme. É como uma viagem. Não tenho um tema prévio, encontro muitas coisas enquanto faço essa estrada. Sei que é uma viagem longa e interessante e não começo nunca com intenções próprias, apenas com curiosidade".

Na história de O Morro dos Ventos Uivantes, bastante conhecida, Heathcliff é o rapaz sem teto, recolhido em Liverpool por uma família que o leva a Yorkshire. Desde criança, ele se apaixona por Catherine, a filha do camponês que o adotou. E esse amor terá desdobramentos trágicos, com rivalidades e vinganças. Andrea Arnold leva essa história a um paroxismo amoroso que não deixa de ser impressionante. Catherine, quando adulta, é interpretada pela atriz britânica Kaya Scodelario, famosa pela série de TV Skins, mas que, para nós, têm outra particularidade - é filha de pai britânico e mãe brasileira e fala português fluentemente.

Girimunho. A exemplo do que já acontecera com o primeiro participante brasileiro em Veneza, Histórias Que Só Existem Quando Lembradas, também Girimunho teve uma boa sessão. Casa quase cheia na Sala Perla, uma das principais de Veneza (era nela que, até o ano passado, se realizavam as sessões da imprensa internacional). É verdade que muita gente saiu durante a sessão, como previra o codiretor Helvécio Marins (a outra diretora é Clarissa Campolina).

Ok, é bom mesmo ser realista e saber que nem todo mundo suporta o tipo de narrativa proposta pela dupla mineira: duas velhas senhoras, imersas no cotidiano modorrento de uma cidadezinha do interior, e que passam a conviver mais intensamente depois que uma delas perde o marido. Interpretado pelas próprias personagens reais, Girimunho (redemoinho) parte do cotidiano da gente simples para alçar-se a uma elaboração metafísica do sentido da vida e da morte. À melhor maneira rosiana, busca na sabedoria popular a profundidade que se julga privativa dos bem formados. Filme muito bonito, inteligente e tocante.

VENEZIANAS

Surpresa?

Saiu o título do "filme surpresa" que será o 23º concorrente ao Leão de Ouro. Seguindo o gosto da atual curadoria, é mais um longa chinês, Ren Chan Ren Hai. Surpresa mesmo teve o público que foi à sessão de manhã e não viu o filme, pois havia "problemas técnicos com a cópia".

Retorno de Olmi

A boa surpresa, já que o termo é esse, foi a volta de Ermano Olmi em plena forma com seu Il Villaggio di Cartone. O diretor de A Árvore dos Tamancos toca em cheio na ferida contemporânea da Itália, o tratamento policialesco que vem sendo dado ao problema da imigração clandestina.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.