A vida do Harlem

O belga Charif Benhelima reúne no Rio 128 imagens flagradas no bairro nova-iorquino, já exibidas em Bruxelas

HELOISA ARUTH STURM, RIO, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2013 | 02h11

O retrato em preto e branco mostra a imagem do homem sentado, com suas calças largas e o chapéu protegendo-o do sol. Parece ter sido tirada em algum ponto remoto dos Estados Unidos nos anos 1930. Mas a pichação ali no canto e os sneakers surrados do anônimo revelam a contemporaneidade da foto. A imagem foi clicada em 1999 no Harlem, área de Nova York onde a maioria da população é negra e há grande influência cultural afro-americana, e foi a primeira de uma série que deu origem ao trabalho Harlem on My Mind: I Was, I Am (Harlem em Minha Mente: Eu Fui, Eu Sou), do fotógrafo belga Charif Benhelima.

Durante os três anos em que viveu no bairro nova-iorquino, Benhelima saiu pelas ruas com sua Polaroid 600 para registrar, sem exotismos, aquele reduto marginalizado. O resultado, ou melhor, o desenvolvimento desse trabalho está em exibição na mostra Imagem em Processo. Charif Benhelima: Polaroids 1998- 2012, no Museu de Arte Contemporânea de Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro. São 128 imagens de quatro séries que estiveram recentemente em exposição no Palais de Beaux-Arts (Bozar), em Bruxelas. Para Benhelima, essa oportunidade de mostrar não só o produto final, mas sim o processo de criação, é importante para promover um diálogo com o público. "É como convidar as pessoas a verem o que acontece em meu ateliê."

O fotógrafo comprou sua Polaroid na mesma época em que se expandiam no mercado as câmeras digitais. Ele não buscava uma série de aparatos tecnológicos, mas sim um desafio. Passou a explorar o que aquele objeto tão compacto poderia proporcionar. As experimentações se traduzem em um jogo de luzes, contornos, contrastes e imagens bipartidas. "Essa câmera te convida a olhar de uma forma diferente."

Enquanto estava morando em Nova York, Benhelima, filho de mãe belga e pai marroquino, órfão aos 8 anos, descobriu sua origem judaica sefardita. A tópica da identidade, que já permeava seus trabalhos anteriores, passa a ganhar força. A herança multicultural e as investigações sobre os diferentes grupos de cultura semita, tanto árabes quanto hebreus, tornam-se a tônica de sua segunda série, Semites, também presente na exposição. São reproduções de retratos reunidos em sua visita ao Marrocos, em 2004.

Fotos de família, de arquivo e de desconhecidos tornam-se a matéria-prima de suas experimentações. Ao refotografar esses rostos de homens e mulheres, Benhelima ofusca suas identidades: encobre as vestimentas, desvanece os traços físicos. E proporciona ao espectador uma reflexão sobre reconhecimento, memória e esquecimento. "Quando você pensa em familiares, você não tem uma imagem definida. Há apenas uma ideia de como a pessoa se parece." Mas mais do que isso, nos leva a pensar sobre o que nos une, mais do que nos diferencia. "Semitas são pessoas que falam a mesma língua, que podem se comunicar umas com as outras. É um trabalho que mostra o que temos em comum. Ninguém pode fazer uma diferenciação e dizer 'este é um judeu, este é um árabe'."

A partir desse trabalho, Benhelima foca sua técnica no que os curadores Christophe De Jaeger e Daniella Géo enfatizam como sendo a estética da evanescência. Imagens no limiar da invisibilidade permeiam as últimas duas séries da mostra, Black-out e Roots (Raízes). O blecaute do fotógrafo traz, em um proposital recurso à iluminação excessiva, objetos solitários e completamente desprovidos de contexto: uma cadeira, uma lixeira, uma trave. Parece não haver espaço para a subjetividade.

Mas só parece. Porque os olhos miram os contornos da imagem em tons de cinza e veem um pião - miram novamente, com mais atenção, e é a figura de um pombo que se revela. E os olhos também veem as duas imagens de uma praia: mas só uma delas foi realmente clicada na natureza. A outra não. "A foto é uma reprodução de um pôster. Você tem a sensação de que está olhando para a natureza, mas você não está. É uma forma de brincar com a realidade", diz Benhelima.

Em Roots, as singelas imagens de flores, árvores e folhagens de diferentes espécies e origens fazem alusão à ocupação do espaço social e à convivência entre seres provenientes de diferentes partes do mundo. "Nós aceitamos tudo o que vem de fora, menos pessoas."

A mostra, que estará em exibição até o dia 23 de junho, permitirá ao visitante dialogar com variadas interpretações e fazer sua própria leitura para cada imagem. "É como um edifício. Você pode ver de fora, de dentro, do topo, do chão. É o mesmo prédio, mas sob diferentes perspectivas. E é isso o que eu quero fazer pelo resto da minha vida: olhar para o mesmo objeto e ver coisas diferentes."

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