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A vida de Jackie Kennedy como editora

Obra trata dos 19 anos em que a ex-primeira dama dos EUA atuou na profissão

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

31 Janeiro 2014 | 20h50

É difícil imaginar uma mulher elegante como Jacqueline Kennedy Onassis (1929-1994), sempre vestida de Chanel, Givenchy ou Oleg Cassini, usando uma calça comprida, ajoelhada no carpete de uma editora diante de uma pilha de livros e com os cabelos defumados pelo cigarro. No entanto, foi assim que ela passou os últimos 19 anos de sua vida, mais tempo que seus dois casamentos juntos – o primeiro com o ex-presidente norte-americano John Kennedy (1917-1963) e o segundo com o armador grego Aristóteles Onassis (1906-1975).

Ainda assim, a ex-primeira-dama dos EUA é descrita no livro Jackie Editora, do norte-americano Greg Lawrence, como uma mulher que renasceu aos 46 anos, ao ser convidada em 1975 para trabalhar como editora pelo ex-dono da Viking Press, Thomas Guinzburg. Dois anos antes, ela, que nunca havia trabalhado na vida, recebeu uma outra proposta, de meio milhão de dólares, para apresentar um programa na NBC sobre tesouros artísticos de Veneza. Onassis não deixou, segundo Lawrence, tirando essa sua ideia da cabeça com uma sentença imperiosa: “Mulher de grego não trabalha”.

O fato é que Onassis já estava morto quando Jackie aceitou o modesto salário de US$ 200 semanais do esperto Guinzburg, que conhecia havia pelo menos 20 anos – o editor dividia o quarto em Yale com o irmão de criação dela, Hugh D. Auchincloss. Esse sobrenome familiar também identifica seu primo, o romancista, historiador e advogado Louis Auchincloss (1917- 2010), um dos primeiros publicados por Jackie, que editou mais de 100 livros.

Entre os autores lançados por ela nos EUA figura nada menos que o primeiro Nobel árabe de literatura, o egípcio Naguib Mahfouz (1911-2006). Foi igualmente graças à influência da ex-senhora Kennedy que Michael Jackson aceitou o pedido para escrever a autobiografia (Moonwalk) e a cantora pop Carly Simon, incentivada por Jackie, resolveu produzir livros para crianças. A lista de autores é enorme, mas nela há poucos best-sellers (entre eles Dançando Sobre Meu Túmulo, da bailarina Gelsey Kirkland, escrito em parceria com seu ex-marido, justamente Greg Lawrence, o autor de Jackie Editora).

A ausência de best-sellers fez com que Jackie aceitasse o desafio de seu chefe na Doubleday e voar até a Califórnia, em 1984, atrás do cantor Michael Jackson (1958-2009), que não tinha o menor interesse em escrever a autobiografia. Tanto que Moonwalk levou quatro anos para ficar pronta – e ainda assim com a ajuda de ghost writers. O mito Jackson queria mesmo era conhecer a mítica Jackie, a quem pediu gentilmente que escrevesse o prefácio do livro. A editora, indiferente à música pop, aceitou constrangida a tarefa, escrevendo um prefácio de três parágrafos – seu desapontamento é indisfarçável.

Ainda assim, o livro vendeu 450 mil exemplares (para sorte da Doubleday, ele foi lançado cinco meses depois do disco Bad). Contudo, Jackie continuou frustrada em seu projeto de se tornar uma editora associada a autores sérios. Ela se sentiu usada pelos donos da Viking e da Doubleday, especialmente o primeiro, Guinzburg, que decidiu, contra a vontade de Jackie, lançar o thriller do escritor e político inglês conservador Jeffrey Archer, Vamos Contar ao Presidente?.

Dessa vez, não foi apenas a falta de qualidade literária, mas a perversidade de Archer. Ele explora no livro uma operação do FBI para abortar um plano de assassinato do presidente dos EUA, cujo perfil pareceu a Jackie tremendamente semelhante ao do cunhado Edward “Ted” Kennedy (1932-2009). Sentindo-se traída pelo editor Guinzburg, ela trocou a Viking pela Doubleday em 1978, sabendo de antemão que a nova editora estava longe de corresponder às expectativas de uma mulher erudita, interessada em Pushkin e em livros de história (a Viking, ao contrário, tinha Steinbeck, Saul Below e os beats no catálogo). Em todo caso, já naquela época, os conglomerados estendiam os braços para encampar editoras. A Viking foi comprada pela Penguin em 1975, ano que marcou a estreia de Jackie como editora. A Doubleday seria arrematada pela alemã Bertelsmann em 1986.

Na Doubleday seu salário subiu para US$ 100 mil. Não era pelo dinheiro que trabalhava, mas para ocupar o tempo e, talvez, provocar quem a via apenas como uma idiota vestida de Chanel – vale lembrar que os anos 1970 foram marcados pela militância feminista. O fato é que a comercial Doubleday não estava interessada nos livros “sérios” de Jackie – seus colegas riam quando ela apresentava nas reuniões projetos como o de uma Pleiade americana ou uma versão de Vasari pra crianças. A casa editorial queria mesmo usar o sobrenome Kennedy para atrair investidores e autores. Foi assim que Naguib Mahfouz entrou no catálogo.

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