Bob Sousa/Divulgação
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A vida como ela é...

Tema de autores clássicos, famílias desajustadas inspiram outras formas dramáticas

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2011 | 00h00

Filas intermináveis. Nas últimas semanas, centenas de pessoas acorrem para assistir a Luis Antônio - Gabriela, espetáculo de Nelson Baskerville, que é um dos fenômenos de público desta temporada. Entre os espectadores, não é raro encontrar quem retorna pela segunda, terceira vez. Mas qual seria, afinal, a razão desse sucesso underground, criado sem grandes recursos e sem pretensões de bilheteria?

Talvez, a verdade do que se vê em cena. "As pessoas ficam muito impressionadas com o fato de que tudo aquilo aconteceu", comenta o diretor, que concebeu a dramaturgia a partir da própria memória. Sem resvalar no realismo, Baskerville valeu-se do formato de "documentário cênico" para contar a trajetória do irmão, Luis Antônio. Um travesti que adota o nome de Gabriela. E mostra o impacto que o fato teve sobre sua família - lar um tanto tumultuado da Santos dos anos 1960, permeado por episódios de violência doméstica, incesto e abuso sexual.

Alteram-se as formas de se contar uma história, mas não necessariamente as histórias que são contadas. E é aí que famílias disfuncionais - que alimentaram tantos dramaturgos no passado - mantêm seu espaço cativo. "Tennessee Williams dizia-se um mágico às avessas, porque recobria a realidade com o véu da ilusão. Mas aqui, não tem véu", diz Baskerville, que recusa o drama como forma. "Esse formato do drama já foi tão desgastado pela TV que hoje não atinge mais ninguém. É tolice acreditar que ele ainda toca as pessoas."

Também na contramão das convenções do drama moderno está Pterodátilos, montagem do diretor Felipe Hirsch para o texto do norte-americano Nicky Silver. Com tintas carregadas e diálogos virulentos, o autor captura o retrato de uma família doentia, à beira do esfacelamento. A peça, lançada nos anos 1990, merece agora uma segunda versão de Hirsch, que já a havia encenado em 2002. Mas todas as questões que perpassa - incesto, dominação, alcoolismo - ganham novo significado em um país tomado pela febre do consumo. "Pterodátilos fala de uma família desestruturada, mas que é uma célula que representa a humanidade. Está no meio de uma sociedade que se vulgarizou. Todos ali estão cegos, buscando uma ascensão a lugar nenhum", aponta Hirsch.

Dinheiro e sede de poder embaralham o relacionamento de mãe e filha em Ciranda, peça de Célia Forte, com direção de José Possi Neto, que deve entrar em cartaz em agosto. Toda a trama se movimenta a partir das desavenças entre a liberal Lena, uma hippie deslocada no tempo, e sua filha Boina, executiva que ambiciona distanciar-se ao máximo da imagem materna. Para a autora, "a família se presta tão bem à dramaturgia porque é o lugar onde o amor é desmedido, onde você se expõe mais. Está tudo lá. Os ingredientes para emocionar e para divertir".

Foi a possibilidade de trafegar por essa tênue zona, entre a comédia e o drama, que mobilizou a atriz Denise Fraga na hora de escolher seu próximo espetáculo. Com estreia marcada para o dia 13, Sem Pensar examina ironicamente as relações familiares, tomando o ponto de vista de uma menina de 12 anos. Escrito por Anya Reiss - autora de 18 anos que é a atual sensação da cena londrina -, o texto lança mão de uma nova dramaturgia para dar conta de velhas questões. "Ela usa uma linguagem muito rápida, dessa geração que já nasceu com a internet", acredita o diretor Luiz Villaça. "Sua escrita é muito bordada, cheia de ações simultâneas. Trata de família de uma forma muito moderna. Como se fosse o Mike Leigh de uma nova geração."

DEUS DA CARNIFICINA

Teatro Vivo. Até 5/6.

LUIS ANTÔNIO - GABRIELA

CCSP. Até 23/4. Reestreia no

Galpão do Folias em 13/5.

MAIS RESPEITO QUE SOU...

Teatro P. Ferreira. Até 28/8.

SEM PENSAR

Teatro Tuca. Estreia em 13/5.

PTERODÁTILOS

Teatro Faap. Até 29/5.

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