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A vida como ela é

Autor honra a tradição do Leblon e de suas Helenas, sem receio de aplaudir tentativas de renovação da telenovela

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2013 | 02h11

RIO - Não é porque um certo Divino, subúrbio fictício de Avenida Brasil, fez pouco caso da zona sul carioca e mostrou fôlego de narrativa seriada, que o Leblon folhetinesco de Manoel Carlos caiu em desgraça. Autor sem pudor de dedicar seus enredos invariavelmente ao bairro onde vive, tendo sempre uma história de vida em primeiro plano, ele constrói aquela que promete ser sua última Helena, agora na voz de Júlia Lemmertz, filha da primeira representante da dinastia helênica do autor - Lilian Lemmertz, em Baila Comigo (1981). E pode apostar: Em Família, que substitui Amor à Vida a partir de 3 de fevereiro, é a volta do novelão clássico ao posto de folhetim das 9.

Novelão, digo, no quesito estilo, e não na duração de capítulos, que fique entendido. Manoel Carlos não é exceção no grupo de autores e atores que reivindica folhetins mais curtos, bandeira que já parece convencer executivos dedicados à produção do gênero.

Fato é que o tamanho do enredo não inibe iniciativas de inovação nem receitas avalizadas pela audiência. "Posso não ser um estouro, mas não faço feio no Ibope", diz Maneco, como é tratado. "E não acho que as pessoas que gostavam das minhas histórias vão deixar de acompanhá-las por terem gostado de Avenida Brasil."

Conhecido morador do bairro do Leblon, no Rio, o autor recebeu o Estado no segundo andar de seu apartamento, cercado de livros e DVDs, onde lhe chegam correspondências pelo correio de todo canto, sem que seu endereço conste necessariamente no envelope. "As pessoas colocam lá: 'Manoel Carlos, Leblon', e a carta chega", diverte-se.

Com as demandas criadas pela TV paga, há uma obsessão pelo treinamento de novos roteiristas, um ofício que durante décadas foi restrito a autores de novelas. Como vê esse movimento?

Puxa, mas era fundamental que isso acontecesse. Eles me convidam muito para fazer oficinas, dar aulas, ensinar. Eu digo: "não posso ensinar uma coisa que eu nunca aprendi". Nunca! Eu, quando comecei a fazer roteiros de teleteatro, com Walter George Durst, que foi um mestre, e Álvaro Moya, nós tínhamos como modelo os scripts do cinema americano. O Durst conseguiu alguns scripts de filmes, na época, e a gente copiou, porque a gente não sabia como fazer.

Avenida Brasil suscitou comparações com o ritmo seriado, lembrando que as séries americanas vêm tomando o lugar do cinema em importância. Isso afeta seu modo de narrativa?

Eu pensei muito nisso e a minha decisão foi absolutamente primária. Eu só posso fazer o que eu sei fazer, o que eu sempre fiz. Estou com 80 anos, trabalho há 62 anos na televisão. Então, não tem sentido agora eu sair fazendo uma imitação. Primeiro, eu vou fazer mal, porque não sei fazer. O que eu sei fazer eu faço com segurança, gostem ou não gostem.

Mas, nesse tempo todo, em algum momento, você se sentiu pressionado a atender a possíveis demandas de nova narrativa?

Não, sempre foi assim. Eu sou do tempo da televisão ao vivo. Nós sempre lembrávamos de Shakespeare, em relação a isso. Todo teatro elisabetano, clássico, era feito em tavernas, onde se comia e bebia enquanto era feito o espetáculo. Então, tinha uma pequena lição do Shakespeare que era: depois de uma cena tensa, dramática, faça uma cena qualquer, bem leve, que as pessoas precisam comer, beber, relaxar. Sempre tinha um bêbado que entrava e falava umas bobagens. Na televisão, eu me deparei muito com esse problema: os atores tinham que mudar de cenário, encompridava-se um pouco a cena e os atores passavam engatinhando (abaixo do foco das câmeras) de um cenário para o outro. Isso tudo, de certa maneira, criou uma forma de fazer roteiro de televisão, de escrever diálogo, que é muito sem pressa.

E seu estilo se mantém.

Eu não saberia fazer diferente. Não é que eu não possa aprender, mas acho que não estou muito na idade de aprender. Mas eu acho que os jovens, que estão agora entrando na TV Globo terão Avenida Brasil como modelo, não terão a mim como modelo, na medida daquela coisa clipada, rápida, todo mundo engavetando umas frases em cima do outro. Aquilo, todo mundo já usou, mas em determinadas cenas, numa briga de jantar, claro que todo mundo fala junto, mas essa coisa frenética e que fez tanto sucesso é uma escola que o João Emanuel pode seguir. Não tem sentido eu fazer isso ou o Benedito (Ruy Barbosa) fazer isso.

Acredita que o revezamento de estilos agrade ao público?

Acho que deve ter de tudo. Agora, veja bem: eu não sou ruim de audiência, não é um estouro, mas eu tô lá. Essas pessoas que me acompanham nessas novelas todas vão deixar de me ver porque também optaram por ver tudo aquilo? Acho que não. Agora, não posso deixar de registrar que dei um pouco mais de ritmo às coisas.

O capítulo tem mais cenas e é mais comprido que há 20 anos?

Ah, muito mais, mas as minhas duas últimas novelas já eram muito longas. Aumentou o tempo do capítulo no ar. Se você pegar um texto de Baila Comigo, que tem 30 e poucos anos, tem capítulo com 22 páginas. Hoje faço 40, 38... O número de cenas era bem menor. Às vezes falam: 'ah, você tem 100 personagens'. Mas tem que ter.

E quanto tem agora?

Eu tô começando com 70 pessoas, mas vai ter muito mais (risos). O porteiro do prédio acaba tendo uma irmã que mora em Niterói, uma filha que tá namorando com o carteiro, vai aparecendo gente.

Agora você promete que essa seja a última Helena, confere?

Causou uma certa espécie eu dizer isso, parecia que eu ia me atirar da ponte Rio-Niterói, mas eu não tenho mais condições de fazer, é muito sacrificante para mim.

Mesmo com colaboradores?

Não importa, eu sou de um tipo de autor que divide pouco. Eu escrevo tudo e peço a eles algumas cenas. Eles são ótimos, poderiam escrever muito mais, mas eu tenho aquela coisa de que eu preciso olhar tudo, reler tudo, eles estão acostumados comigo. Dessa vez, quando aceitei fazer essa novela, impus duas condições e falei ao Manoel Martins (diretor de Entretenimento): que a novela seja mais curta - não vou fazer 200 e tantos capítulos; ele falou: "não, todas as novelas são mais curtas a partir de agora". E parece que são mesmo. E outra: se eu ficar muito cansado, eu passo a novela para os meus colaboradores e fico supervisionando. Ele disse: "tudo bem, você não confia nos seus colaboradores?" Eu confio integralmente. É pelo volume de trabalho, é muita coisa.

Regina Duarte, duas vezes Helena, avalia que a existência de vários núcleos afasta o público. A novela antes era mais focada.

Pode ser, mas tudo isso está ancorado no volume de capítulos, na quantidade de gente que tem que entrar e no tamanho da novela no ar. Esse negócio de fazer com pouca gente, chega um momento em que fica uma armadilha, uma encruzilhada difícil de resolver. É muito longo, muita gente que tem que entrar pra povoar aquele capítulo de uma maneira não tão cansativa.

Em Avenida Brasil, já acharam que a novela estava se arrastando quando Nina (Débora Falabella) passou um capítulo inteiro dentro de uma cova. Quanto tempo isso duraria em novela sua?

Ihhh, uma semana (risos). Mas nisso eu realmente tive uma redução. O Jayme (Monjardim, diretor de núcleo) ontem falou isso: "essa sua novela está com um ritmo mais pontuado".

O Parkinson, por meio do Paulo José, será uma bandeira central nessa novela?

Exatamente. O Paulo está muito entusiasmado. O maior problema dele é falar, mas ele dá um duro louco para ficar bem. E ele melhorou muito. Claudica um pouquinho, mas eu também claudico. E não pode mais falar Mal de Parkinson, eles não gostam, ele me avisou.

E de novo você volta ao alcoolismo, agora em jovem?

E é médico (Felipe, personagem de Gabriel Braga Nunes). O Felipe começa a beber quando criança, isso era uma coisa muito comum: vinho com um pouquinho de água e açúcar. Eu tomei na minha infância e todas as crianças que queriam tomavam, às vezes misturavam com Soda. Ele se forma médico. Passa no botequim, toma um gole, bebe em casa, nenhum vexame até aí, mas um dia precisam dele no plantão e ele está dormindo, atrás de um móvel, para não ser encontrado, porque ele já está dependente. Mas é um bom médico, um ótimo sujeito, como todo bêbado. Bêbado de novela normalmente é divertido. Achei que médico é uma coisa que escandaliza muito. Há muito médico dependente e não se fala nisso.

Alcoolismo é um tema recorrente na sua obra. Você tem casos entre amigos ou familiares?

Ah, tenho um tio. É engraçado: botei esse tio meu numa novela e encontrei tanta gente dizendo que tem um tio igualzinho. Aí cunhei essa expressão: "toda família tem um tio alcoólatra". Nunca se diz alcoólatra, dizem que o sujeito "exagera", "bebe um pouco".

Você vai castigar o personagem do Paulo José para ganhar a compaixão do público?

Eu vou, mas de certa maneira, quando ele vai lá para casa de repouso, onde os velhinhos estão um pouco humilhados, constrangidos com uma nova gerente. É um centro religioso mantido pela Igreja Católica. Quem faz o papel é a Betty Goffman, ela é a grande vilã.

Você também tem essa presença forte do catolicismo. Por quê?

Eu tenho uma formação católica, quis até ser padre, minha mãe queria muito que eu fosse padre. Hoje sou aquele católico meio universal, mas minha mãe foi muito religiosa. Gosto muito de igreja. Igreja com música, então... Mosteiro de São Bento, esses lugares são incríveis, como teatro. E é claro que faço algumas coisas pra adular minha mãe morta.

Como se ela pudesse se orgulhar de você?

Exatamente. Eu não como algumas coisas que a minha mãe não gostaria que a gente comesse, como manga com leite, pepino à noite, pimentão à noite... Ovo à noite? Nunca. Meus filhos foram criados com absoluta liberdade. De certa maneira, existe um certo carinho em obedecer minha mãe até hoje.

Por que só se cobra lógica da ficção, mas não da realidade, às vezes inacreditável?

O grande problema da ficção é fazer sentido. Porque a realidade não precisa. Um sujeito cair de um décimo andar e sair andando? As pessoas dizem: "isso é absurdo!". Mas, se sai no jornal, todo mundo acredita. A dificuldade da ficção é fazer sentido, para que as pessoas acreditem, porque a realidade não precisa provar nada.

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