A vida cheia de som de Felipe Hirsch

Desde adolescente, encenador mantém uma íntima relação com canções, nacionais e estrangeiras, que moldam decisivamente seu trabalho no teatro e no cinema

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2010 | 00h00

O diretor Felipe Hirsch é uma verdadeira usina cultural contemporânea. Se questionado sobre literatura moderna, discorre com desenvoltura sobre John Fante, Paulo Leminski, Dalton Trevisan, Nick Hornby. Cinema? Cita com detalhes cenas de Akira Kurosawa, Theo Angelopoulos. Já no teatro, seu hábitat natural, transita bem entre Samuel Beckett, Chekhov, Brian Eno. Claro que não poderia faltar a música, arte pela qual Hirsch tem verdadeira paixão. "A maior raiz da minha vida artística talvez seja a música em geral, pois ela me veio muito antes que qualquer coisa", conta ele. "Na adolescência, eu tanto escutava De Conversa em Conversa, de João Gilberto, como Bach, Glen Gould e rock."

Aos 37 anos, Hirsch já dirigiu no teatro estrelas como Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Marco Nanini e Marieta Severo. Atualmente, está em cartaz com Cinema, envolvente trabalho sobre o ato de ver, que ocupa o Teatro do Sesi até julho. Também estreou como cineasta, dividindo a direção com Daniela Thomas em Insolação. Em todas as obras, independente do formato, a música ocupa um espaço privilegiado.

"Busco caminhos que despertem paixões novas", diz. "Quando monto uma cena, logo penso em uma música. Mas também acontece de alguma canção me despertar uma emoção que ajuda a montar a cena, mesmo que essa música não seja usada na montagem."

Grosseiro. Ele conta que é um ato sensorial e emocional - não basta simplesmente escolher uma música que emociona e colocar em cena. O resultado, constata, muitas vezes é grosseiro. "É preciso habilidade para lidar com detalhes muito delicados."

Felipe Hirsch comenta ser um grande ouvinte de música brasileira, com preferência pelo que chama de "marginais", como Noel Rosa, Radamés Gnatalli, Bartók, Mahler, uma classe muito distinta que surgiu antes da industrialização da música. "Lembro de um disco do Chico Buarque chamado Caros Amigos, um trabalho mal gravado, com violão com corda de aço e Altamiro Carrilho participando de uma faixa, mas muito interessante", observa. "Hoje, depois que a publicidade dominou o conceito das gravadoras e com a chegada das mesas digitais, surgiu o som de corda de náilon e a MPB ficou mais chata."

A paixão por música começou cedo. Hirsch diz que gastava tudo que ganhava em música e livro. "Hoje, gasto só 80%", brinca. "Acompanho o lançamento de 500 a 600 discos por ano e acabo comprando uns 200." Hoje, em seu apartamento em São Paulo, ele tem 3 mil CDs. "Tenho outros mil em Curitiba", explica, lembrando que a coleção só perde para a de livros, calculada em 9 mil exemplares.

"Havia um valor incalculável na época do vinil de 180 gramas, especialmente o importado. Era caro, mas proporcionava um momento especial, quase uma cerimônia, para se ouvir o lado A e depois o B. Tornou-se uma formação."

Hoje, a relação com a música é mais fria, sem arte visual, sem capa trabalhada. Para o diretor, é uma forma de deseducação. "Cria-se uma ignorância sobre a história da música pop", comenta Hirsch que, a pedido do Estado, destacou os discos que o agradam tanto pelo visual como conteúdo (veja quadros).

A influência em seu trabalho é tão grande que o diretor coleciona histórias engraçadas. Como quando estava em cartaz com A Vida É Cheia de Som e Fúria, o primeiro sucesso de seu grupo, Sutil Companhia de Teatro. "Eu comprava muitos discos com o nosso operador de som, Guto. Como não tínhamos chance de ouvir, colocávamos para tocar durante a apresentação. Os atores logo se acostumaram com música nova durante a peça."

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