A viagem transcultural do baiano que recriou o Brasil

ANTONIO GONÇALVES FILHO

O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2012 | 03h11

A observação de Proust - "todo grande autor escreve em língua estrangeira" - pode parecer imprópria quando se fala de Jorge Amado (1912-2001), identificado como um escritor que seguiu fiel por toda a vida a um projeto de busca da identidade nacional. Mas é justamente o transculturalismo da ficção amadiana que faz da sua literatura, no centenário de seu nascimento, um sucesso crescente no Exterior, com traduções piratas na China e Rússia. Entre as oficiais, as traduções alemã, espanhola e francesa dominam. Amado foi traduzido em 49 línguas e 55 países, revela Myriam Fraga, diretora da Fundação Casa de Jorge Amado, em Salvador, que preparou uma série de atividades para marcar os 100 anos do escritor, comemorados no dia 10, entre elas uma exposição, um concerto, o lançamento de um livro sobre suas relações com o cinema e um colóquio que começa no dia 13, na Universidade da Bahia.

O título do colóquio toma emprestada uma frase do escritor moçambicano Mia Couto sobre Amado. Ele disse que o baiano não escrevia livros, e sim, o País, dando a entender que, numa perspectiva antropológica e sociológica, sua obra, mais do que literária, é uma chave mestra para uma interpretação do Brasil. Talvez isso explique o crescente interesse pelos livros de Jorge Amado lá fora. Foram fechados recentemente mais de 90 contratos para tradução, o que atesta sua reputação como autor popular, criador de personagens que, brasileiros miscigenados, alcançam dimensão universal por incorporar de forma carnavalesca tanto a herança europeia como a africana em suas contraditórias personalidades. Mia Couto, aliás, foi quem atestou a influência da narrativa amadiana nas obras dos escritores contemporâneos africanos. Isso é notável especialmente entre os nigerianos e marfinenses, grandes contadores de histórias, como Amado.

Há quem julgue paradoxal um autor empenhado em escrever para a massa, que começava a ser alfabetizada quando ele estreou, nos anos 1930, ter tamanho apelo junto ao leitor estrangeiro, especialmente o mais sofisticado. Amado, a esse respeito, explicou que os antípodas valorizavam especialmente sua literatura por ser o contador de histórias a norma, e não a exceção, na tradição literária europeia. E, logo em seguida, fazia desfilar os nomes de seus antecedentes literários: François Rabelais (1494-1553), sacerdote sem vocação e anarquista francês do Renascimento; Miguel de Cervantes (1547-1616), criador do romance moderno; Alexandre Dumas (1802-1870), romântico francês e pai de personagens inesquecíveis; Charles Dickens (1812-1970), o vitoriano inglês que denunciou a exploração dos miseráveis em seu país e, finalmente, Naguib Mahfouz, o Nobel egípcio que introduziu a linguagem romanesca entre os povos árabes, também tradicionais contadores de histórias.

Isso explica, segundo o professor de Literatura da Universidade Federal de Minas Gerais, Eduardo de Assis Duarte, por que a obra de Jorge Amado, presente na cultura brasileira há 81 anos, desde que publicou O País do Carnaval (1931), assume a herança folhetinesca do século 19 logo no primeiro livro. Ele faz do protagonista, Paulo Rigger, filho de um produtor de cacau que estudou em Paris e não se identifica com o Brasil, uma figura arquetípica da elite que quer entender, mas mantém distância higiênica do povo. Diante do drama dos excluídos, Amado teve de tomar posição, observa Assis Duarte: ou ficava do lado da vanguarda estética dos modernistas de 1922, ou assumia seu papel na vanguarda política, mesmo que para isso tivesse de fundir o "roman feuilleton", melodramático, com a linguagem fluente e fantasiosa do "romance romanesco".

Essa descoberta estilística, curiosamente, não tem raízes literárias, mas cinematográficas. Assis Duarte lembra que foram os filmes mudos de Chaplin que marcaram o jovem Amado - e é impossível dissociar os dois do compromisso ideológico com os despossuídos e a perseguição policial empreendida contra ambos por causa da simpatia pelo marxismo. "Jorge dizia que não era um romancista, como Guimarães Rosa, mas fundamentalmente um contador de histórias." Engana-se, porém, quem imagina que o compromisso ideológico do escritor (eleito deputado federal pelo PCB, em 1945) o tenha conduzido a um desprezo pela forma e a linguagem. "Ele incorpora estratégias narrativas do cinema em Jubiabá, de 1935, para popularizar a literatura, revestindo o texto de Capitães da Areia (1936) de cores melodramáticas, mas, a partir de Gabriela (1958), sem abdicar do romance romanesco, o tratamento literário das relações de poder muda, entrando em cena heroínas impetuosas e sensuais como Dona Flor, Tereza Batista ou Tieta."

Isso não significa, segundo o professor, uma mudança radical no projeto estético do escritor - "que continua idêntico ". Em todo caso, a utopia socialista marca presença maior antes, na ascensão social do menor abandonado Pedro Bala ao posto de militante político, em Capitães da Areia, seu mais popular livro. Curiosamente, ela é secundária na versão cinematográfica americana do livro, The Sandpit General (1971), dirigido por Hal Bartlett (1922-1993) e inédito no Brasil (apesar da presença do compositor Dorival Caymmi e da cantora Eliana Pittman no elenco). A nova adaptação, feita pela neta do escritor, Camila Amado, tenta ser fiel ao romance, que termina com a volta por cima do delinquente, reagindo à situação adversa graças a uma tomada de posição ideológica.

O acadêmico João Ubaldo, cronista do Caderno 2 e grande amigo de Jorge Amado, lembra que o criador de Tenda dos Milagres não era nem um stalinista mal informado nem um religioso convertido, como descrito por alguns. "Jorge dizia que a gente é inclinado a pensar que só existem canalhas na direita, quando a esquerda está cheias deles." Quanto à religião, Ubaldo confirma que, apesar de ser obá de Xangô, Amado era agnóstico - ele dizia que nem o sentimento de ateu tinha, justificando seu livre trânsito nos terreiros como próprio do sincretismo existente no Brasil. Apesar do "fantasma" do malandro Vadinho atormentando Dona Flor em sonhos eróticos e do Pedro Archanjo de Tenda dos Milagres dar tanta atenção ao candomblé, sendo materialista, Amado, garante João Ubaldo, não acreditava em alma do outro mundo e tampouco em transcendência. Seu embate era com o mundo real, de conflitos entre etnias e categorias sociais.

Foi assim que nasceu, com Jubiabá, o primeiro herói épico negro na história da literatura brasileira, diz o professor Assis Duarte. Nesse livro, Amado desafia a elite do País, formada pelo discurso da eugenia e do arianismo. E o faz por meio de um personagem, Antônio Balduíno, que entra em cena derrotando um alemão num ringue de boxe - isso em 1935, ano em que foram aprovadas as leis de Nuremberg. Elas proibiam casamentos ou relações extraconjugais entre alemães e judeus, exigindo de quem desejasse ser um Reichbürger (cidadão do Reich) comprovação de sangue alemão. O escritor provou ser um visionário: em 1936, um atleta negro americano, Jesse Owens (1913-1980), derrotaria os alemães na pista de corrida dos Jogos Olímpicos de Berlim.

Jubiabá, define Assis Duarte, consolida o modelo romanesco amadiano, que tempera, segundo o professor, "o realismo social com denúncias contra a sobrevivência dos velhos esquemas semifeudais". O crítico Antonio Candido, sobre a presença dos desvalidos na ficção dos anos 1930, escreveu que livros como os de Amado ensinavam os letrados a "dar um certo status de dignidade humana" a pobres como Balduíno. Com a virada de Gabriela, Amado, contudo, não teria se limitado a "requentar a crônica de costumes pela mitologia baiana", segundo Assis Duarte. O escritor continuou a usar figuras do povo - mas elegendo as mulheres como protagonistas, numa espécie de vingança antipatriarcal. E elas fizeram tremendo sucesso também em outras mídias populares, em especial a TV e o cinema. Essa vocação para outras mídias (leia texto ao lado) é explorada no livro Jorge Amado e a Sétima Arte (EdUfba/Casa de Palavras), organizado por Bohumila S. de Araújo, Maria do Rosário Caetano e Myriam Fraga, que será lançado em Salvador no dia 10.

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