A viagem de Pedro

Leia a seguir o início do romance Passageiro do Fim do Dia, do ficcionista e tradutor carioca Rubens Figueiredo, que chega às livrarias no mês de novembro, pela Companhia das Letras

, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2010 | 00h00

Não ver, não entender e até não sentir. E tudo isso sem chegar a ser um idiota e muito menos um louco aos olhos das pessoas. Um distraído, de certo modo - e até meio sem querer. O que também ajudava. Motivo de gozação para uns, de afeição para outros, ali estava uma qualidade que, quase aos trinta anos, ele já podia confundir com o que era - aos olhos das pessoas. Só que não bastava. Por mais distraído que fosse, ainda era preciso buscar distrações.

Pedro abriu com a unha a tampinha da parte de trás do rádio minúsculo e trocou a pilha. A música foi devolvida, tão forte quanto os chiados e mais alta do que os barulhos da rua. Ele tinha enfiado os fones nos ouvidos. Estava de pé, num fim de tarde, colhido numa diagonal rasante por um sol cor de brasa que se recusava a ir embora e se negava a refrescar. Um sol quase colado à sua testa e também à testa de todos os outros, que se mantinham em ordem numa fila, à espera do ônibus no ponto final.

Não havia nada entre o sol e as cabeças de todos ali, a não ser a parte mais alta do poste de concreto e os fios bambos de eletricidade ou de telefone, que lá em cima irradiavam para os dois lados numa simetria de costelas. A sombra da fila, estendida quase ao máximo sobre a calçada, era a única sombra. A demora do ônibus, o bafo de urina e de lixo, a calçada feita de buracos e poças, o asfalto ardente com borrões azuis de óleo, quase a ponto de fumegar - Pedro já estava até habituado. Não são os mimados, mas sim os adaptados que vão sobreviver.

Pensando bem, não era tanto uma questão de hábito nem de mimos. Acontece que toda hora é hora de avançar na escala evolutiva, subir mais um degrau. É mesmo impossível ficar parado e, qualquer que seja a direção em que as pernas começam a andar, o chão logo toma a forma de uma escada. Além do mais, é preciso reconhecer: sem mal-estar, sem adversidade, sem um castigo sequer, como se pode esperar que haja alguma adaptação?

Pedro, talvez por causa da música engasgada nas orelhas, demorou a perceber que um ônibus se aproximava por trás, pela rua, rente à calçada. Vidros meio soltos nas janelas e placas frouxas de metal trepidavam dentro e fora do ônibus. A tampinha que protegia a boca do tanque de combustível tinha sido destravada e, a cada solavanco das rodas, o pequeno quadrado de metal estalava com força de encontro à lataria. Por um momento, a sombra alta e retangular do ônibus cobriu a sombra da fila na calçada. Mas o ônibus, em vez de parar, passou direto, deixou a fila para trás e foi estacionar no ponto seguinte, vinte e cinco metros adiante.

Era um ônibus de outra linha. O motorista desligou o motor, ergueu o corpo, saltou por cima do capô e desceu os três degraus da porta aos pulos, com toda a força. Cada pulo fez balançar a carroceria inteira. Depois, afobado, o motorista contornou o ônibus pela frente. Escondido das pessoas que aguardavam em várias filas na calçada, urinou a céu aberto - de costas para a rua, o corpo virado para a roda, quase encostado ao pneu dianteiro.

Com a chegada do ônibus que não servia para ele, Pedro percebeu como sua fila vibrou de uma ponta à outra, numa corrente de impaciência. Algumas cabeças viraram para trás, em busca do ônibus atrasado. Desconhecidos trocaram resmungos. Corpos mudaram o pé de apoio, calcando com rancor os buracos da calçada.

Mas até aí nada do que estava acontecendo chegava a ser novidade. Havia alguns meses que toda sexta-feira, à mesma hora, Pedro ia para aquele ponto final, tomava seu lugar na fila. Já conhecia de vista vários passageiros. Sem nenhum esforço e sem a mínima intenção, já sabia até alguma coisa a respeito de alguns - já contava com a irritação desse e com a resignação de um outro, por causa da demora do ônibus. Às vezes, sem perceber, chegava a brincar mentalmente, testava como as reações deles eram previsíveis. E por esse caminho misturava-se àquela gente, unia-se a alguns e, a partir deles, aproximava-se de todos. Mesmo assim, mesmo próximo, estava bastante claro que não podia ver as pessoas na fila como seres propriamente iguais a ele.

A razão, Pedro ignorava. Nem se esforçava em procurar uma razão, pois para ele tratava-se de um sentimento vago demais, quase em forma de segredo. Apesar disso, Pedro era obrigado a reconhecer que o impulso de partirem todos juntos na mesma direção e o afã de pontualidade, ou pelo menos de constância, não bastavam para fabricar um sangue comum. Aquelas pessoas pertenciam, quem sabe, a um ramo afastado da família. Mais que isso, já deviam constituir uma espécie nova e em evolução: alguns indivíduos resistiram por mais tempo; outros fraquejaram, ficaram para trás.

De onde estava, isolado por uma barreira que não era capaz de localizar, Pedro começava a enxergar em todos ali uma variedade de gente superior. Começava a pensar que ele mesmo, ou algo no seu sangue, tinha ficado para trás, em alguma curva errada nas gerações.

E pronto: ali estava um bom exemplo do que acontecia tantas vezes com Pedro. Ele sabia disso. De devaneio em devaneio, de desvio em desvio, seus pensamentos se precipitavam para longe, se desgarravam uns dos outros e no fim, em geral, acabavam se pulverizando sem deixar qualquer traço do que tinham sido, do que tinham acumulado. Às vezes, no entanto, ali mesmo na fila do ônibus, no meio daquelas pessoas, suas ideias perdidas voltavam atrás, de todas as direções, convergiam de um salto e Pedro, surpreso e até assustado, dava de cara com a pergunta: Por que eles permitem que eu fique aqui? Por que não me expulsam, como é do seu direito?

Sabia que, para muitos passageiros, aquele seria o segundo ônibus em sua viagem diária de volta para casa. Sabia que a mulher com aparência de uns sessenta anos, mas que devia ter só uns quarenta e três, com cinturões de gordura nas costas que marcavam profundas pregas na blusa, não tinha os dentes incisivos na arcada inferior. E sabia que ela trazia dentro da sacola, sempre abarrotada, uma Bíblia encapada em plástico transparente, que ia abrir e ler no seu banco do ônibus, durante a viagem de mais ou menos uma hora e meia.

Pedro sabia que o rapaz de uns vinte anos, de cabelo raspado, com dois dedos da mão paralisados para sempre numa ligeira curva em gancho por causa de algum acidente, ia dormir de cansaço no meio da viagem. A cabeça ia ficar encostada no vidro da janela, ou ia tombar de vez em quando, quase tocando em quem estivesse sentado ao seu lado.

Pedro sabia até que o homem de uns quarenta anos, com o uniforme de uma firma de consertos de eletrodomésticos e marcado no antebraço por uma cicatriz marrom de queimadura, trazia dobradas dentro da maleta de ferramentas as páginas da seção de esportes do jornal. No fim do expediente, ele devia pegar aquelas folhas na recepção da firma para ler durante a viagem.

O que Pedro na maior parte do tempo não sabia, ou não conseguia lembrar, era que ele mesmo estava ali, junto com os outros. Fazia os movimentos corretos, ocupava o espaço adequado ao local e à hora, e até se demorava observando e guardando detalhes - para ele acidentais, interessantes. Porém sua atenção tinha mais força do que qualidade. Enxergava bem, mas olhava como que de longe, ou como que através de um furo na parede. Sem ser visto, Pedro mesmo não se via. Não conseguia imaginar que aspecto teria - as costas, o braço, a nuca - aos olhos daquelas pessoas.

Na sombra da fila sobre a calçada, sua silhueta moveu o braço. Pedro mudou o rádio minúsculo de lugar, na tentativa de captar melhor a estação. Como os outros, estava cansado. Não tinha carregado caixotes de frangos congelados para a caçamba de um caminhão nem havia esfregado corredores e escadas de um prédio de quinze andares de cima até embaixo como alguns outros ali, mas tinha ficado muito tempo em pé no trabalho. O sangue parecia descer com um grande peso pelas pernas até o fundo dos pés. Os dedos endurecidos chegavam a latejar, apertados uns contra os outros, dentro do bico do tênis.

O AUTOR

Nome: Rubens Figueiredo

Idade: 54 anos

Origem: Rio de Janeiro Principais obras: O Livro dos Lobos, As Palavras Secretas e Barco a Seco (Companhia das Letras)

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