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A viagem de Baby

No regresso da família, algo terrível aconteceu. O boneco foi esquecido na casa dos avós

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

22 de julho de 2018 | 02h00

Baby é um boneco. Boneco daquele tipo mais básico da atualidade. Aquele tradicional boneco careca de plástico, branco e de olhos azuis, pouco representativo da diversidade do país, que pode ter nomes como Meu Bebê, Nenuco, Nenê Encanto ou outras coisas do gênero consoante a marca.

Luísa ganhou o boneco no seu primeiro Natal. A princípio não deu muita bola para ele, mas, mais perto dos 2 anos de idade, afeiçoou-se pelo brinquedo e – coisa de criança que estuda em escola bilíngue – batizou-o de Baby.

Baby tinha uma muda de roupa, mas Luísa gostava daquela imagem genuína do bebê pelado, como veio ao mundo, que de fato tem um quê de libertadora. Mesmo quando foi com os pais para a Patagônia no inverno, negou-se a colocar qualquer tipo de vestimenta no boneco, que, para nossa sorte, tem uma saúde de ferro (ou de plástico, no caso) e não pegou uma pneumonia.

Baby passou a fazer parte da família, me dando o título precoce de tia-avó antes dos 30 anos, bem como tornando minha irmã avó aos 34 e fazendo com que os avós se transformassem em bisos ainda na casa dos 60. Baby, como toda boa boneca contemporânea, também foi sendo personalizado ao longo dos anos, ganhando rabiscos de canetinha verde no rosto, pescoço e dentro da boca.

A relação entre Luísa e Baby era de muito amor e dependência. Baby nos acompanhava no carro, nos restaurantes, nas viagens e nas festas de família. No último Natal não foi diferente. O boneco viajou de São Paulo para Coimbra para comemorar os festejos do fim do ano com seus bisavós paternos. Até arroz de polvo o Baby comeu.

No regresso da família, algo terrível aconteceu. Entre malas, presentes, passaportes e tantas outras coisas que deveriam ir de Coimbra para Lisboa, o Baby acabou ficando esquecido no sofá da casa dos avós da Luísa. Por sorte, o voo de Lisboa para São Paulo era só dali a três dias. Quando minha irmã entrou em minha casa lisboeta, me puxou para um canto e disse em palavras mudas “o. Baby. ficou. em. Coimbra. ela. ainda. não. percebeu”.

Eu sabia o que aconteceria quando ela percebesse. O mesmo que acontece com os adultos quando percebem que esqueceram o celular, os óculos, o maço de cigarros. A única diferença era que ela não iria segurar o choro. Nós seguramos. Precisávamos arquitetar um plano o quanto antes. Não havia a menor hipótese de embarcar no voo para Guarulhos sem a presença do Baby. Ou iam todos, ou não ia ninguém.

Toda família foi mobilizada por WhatsApp. Era uma questão urgente e prioritária. O que fazer? De repente me lembrei que, um dia, ao levar minha enteada na pracinha, troquei contatos com o pai de uma menina com quem ela brincou, que era professor em Coimbra e que ia e voltava sempre. Não tive dúvidas, escrevi para ele, narrando o incidente. Nada que um pai de criança não entenda. Todavia, por um grande azar, ele não iria para Coimbra aquela semana.

Vamos para um Plano B. Arriscado, porém com alta possibilidade de êxito. O avô Luís pega o Baby em sua casa. Dirige-se até a estação de trem de Coimbra. Começa a analisar os perfis das pessoas que aguardavam o trem para Lisboa. Procura alguém com ar de avô ou avó. Encontra um casal. Aproxima-se. Narra o caso. Recebe retorno positivo. Baby viajará com estranhos. Nos avisa: casal, cerca de 70 anos, ela de vermelho, ele de preto. Chegam a Lisboa às 20h23. Câmbio, desligo.

20h. Minha irmã pega um táxi. Eu vou entupindo a criança de comida para distraí-la. Marina chega à estação de Santa Apolónia. Procura o casal. Localiza. Resgata o Baby, pelado como sempre. Agradece profundamente. Volta para minha casa. Tira o Baby da bolsa sorrateiramente. Coloca-o em cima do sofá. Nos olhamos, aliviadas. Luísa o vê e diz “vem, Baby, vem com a mamãe”. Beija sua careca. Todo esforço valeu a pena.

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