A vez da política de sentimentos

Copie Conforme, de Abbas Kiarostami, põe em discussão conflitos de um casal

Luiz Carlos Merten, ENVIADO ESPECIAL, CANNES, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2010 | 00h00

Houve uma bela festa do Brasil hoje, na salas do 60.ème, criada há três para comemorar os 60 anos do Festival de Cannes. Foi lá que Cacá Diegues e Renata Magalhães mostraram a nova versão de 5 X Favela - Agora por Nós Mesmos. Cercado pelos sete diretores dos cinco episódios, Cacá lembrou que festejou seu 24º aniversário aqui, na Croisette. Foi quando veio pela primeira vez a Cannes, para exibir seu primeiro longa, Ganga Zumba, na Semana da Crítica. Agora, 40 e tantos anos depois, Cacá está de volta apadrinhando a garotada que saiu da favela para tentar a sorte no maior evento de cinema do mundo. É como um conto de fadas. Manaíra Carneiro e Wagner Novais, Cacau Amaral e Rodrigo Felha, Luciano Vidigal, Cacau Barcelos e Luciana Bezerra assinam as cinco histórias da nova versão do filme considerado manifesto do Cinema Novo. Os episódios podem ser irregulares, mas o filme, como um todo, é simpático. Do ponto de vista cinematográfico, o melhor é o primeiro, Fonte de Renda. Mas todos mostram essa raridade - a visão de dentro da favela, a discussão sobre o certo e o errado, o legal e o justo. Será preciso voltar a 5 X Favela. Por enquanto, fica o primeiro registro sobre a exibição, que teve sala lotada.

Mas o grande destaque do dia foi de Abbas Kiarostami. Juliette Binoche é a imagem que ilustra o cartaz do 63º festival. Quando Gilles Jacob lhe pediu autorização para que isso ocorresse, Juliette ainda não sabia, nem Jacob, que Copie Conforme estaria na seleção oficial. O novo Kiarostami é uma belíssima surpresa até para quem se acostumou a ser surpreendido pelo autor iraniano. Seu filme anterior, Sirin, foi experiência meio frustrada, mas talvez não tivesse acertado tanto o tom em Copie sem passar por aquela viagem pelo rosto feminino. Cinéfilo que se preze se lembra de Sirin. O filme se desenrolava no rosto de mulheres, Juliette incluída, que assistiam a uma representação. Kiarostami já deu múltiplos testemunhos sobre a sociedade iraniana e ontem, na coletiva, militou pela liberdade de expressão em seu país, criticando o governo do presidente Ahmadinejad por manter encarcerado o cineasta Jafar Panahi. O filme, propriamente dito, milita por outro tipo de política, a dos sentimentos.

Desta vez, Kiarostami filma na Itália, na Toscana, e coloca na tela os problemas de um casal. Copie é bem escrito, partindo de uma discussão sobre arte para discutir como homem e mulher se veem um ao outro. Juliette conta uma história interessante. Ela conhecia Kiarostami de contatos em festivais. Ele a convidou para visitá-la no Irã, ela aceitou. Em Teerã, ele começou a lhe contar uma história. Ele analisava as reações no rosto de Juliette. Encantou-a por 45 minutos e depois lhe confessou que tudo aquilo era mentira, uma ficção que ele ia engendrando para saber se conseguiria prender sua atenção falando numa língua, o inglês, que não a dele.

Copie Conforme nasceu dessa ideia. O que é falso, o que é verdadeiro na vida como na arte. No início, o espectador não sabe que se trata de um casal. As descobertas vão ocorrendo ao longo de uma conversação muito bem filmada. Kiarostami fez o seu Viagem na Itália, bebendo na fonte de Rossellini, inventor do cinema moderno, mas o filme, falastrão como é e nem de longe animado pelos silêncios de Michelangelo Antonioni, também tem algo dos desencontros do casal de A Aventura. Copie Conforme é o melhor filme deste festival até agora. Numa cena, Juliette experimenta brincos, para decidir qual usar. Ela põe um vermelho. A imagem dura 15/30 segundos na tela. Essa imagem "efêmera" foi escolhida por Kiarostami para ilustrar o cartaz de seu filme, para ser "permanente". Até isso faz parte do mistério de Copie Conforme.

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