A vez da cigar box

Matty Baratto, especialista em guitarras cigar box, fala da volta desse singular instrumento

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

02 Fevereiro 2013 | 02h06

Seis cordas de aço são esticadas sobre um pescoço de madeira maciça. Tocadas, zunem com precisão dentro de um aro de pneu acoplado a uma lata de tinta. Um simples captador desfere o veneno metálico. Eis a receita da cigar box, guitarra que data dos primórdios do blues e tem despertado uma onda de seguidores, nos últimos anos. Entre eles, Billy Gibbons, do ZZ Top, Joe Perry, do Aerosmith, e Sir Paul McCartney, que tocou o instrumento em concerto beneficente para as vítimas do furacão Sandy, em dezembro, no Madison Square Garden.

"As primeiras foram feitas na época da escravidão, quando os músicos negros, no Sul dos Estados Unidos, se viravam com o que tinham", explica o luthier Matty Baratto, mestre da confecção das cigar box , criador da que foi usada pelo ex-Beatle. "Um pedaço de pau, um arame, e o toco de uma garrafa de refrigerante bastavam para eles tocarem o blues", completa.

Primeiro instrumento de diversos músicos de folk, country e blues nos anos em que não tinham dinheiro para adquirir uma guitarra profissional, a cigar box desperta o interesse de colecionadores e consagrados desde o início dos anos 90. Até então, era um projeto caseiro, feito com cabos de vassoura e pratos de alumínio, do tipo usado para conservar a marmita. Nos últimos vinte anos, entretanto, saudosismo e o desejo de ter um instrumento com sonoridade distinta, que não possa ser replicada por um pedal ou software, formaram um nicho a ser preenchido pela cigar box. Hoje, o instrumento gaba-se até de um festival anual, na Pennsylvania, organizado para reunir leigos e especialistas.

Johnny Depp. "Por muito tempo, eram guitarras comuns. Quando eu era jovem, resolvi fazer as minhas próprias, com diferentes designs de pintura", explica Baratto, um dos mais requisitados luthiers do gênero. A história de como a cigar box de Baratto chegou às mãos de Sir Paul ilustra o fascínio da comunidade artística pelo instrumento. Um amigo de Johnny Depp apareceu na loja de Baratto, e comprou uma para o ator. Depp toca uma consistente carreira paralela como músico, tocando em discos de artistas como Oasis e trilhas de filme. Empolgado, Depp encomendou mais guitarras e mandou uma para seus amigos. Patti Smith, Tom Waits, Keith Richards e Steve Tyler. Presenteou também seu amigo Paul McCartney, que é visto com a guitarra de Baratto na foto ao lado, durante o show beneficente 12.12.12.

"Aquela é dos modelos que usam um aro de pneu", explica Baratto sobre a guitarra de Sir Paul, antes de entrar em detalhes mais técnicos. "O aro funciona como o couro de um banjo. Você ajusta ele para tirar um som diferente. É o mesmo processo com um violão dobro", completa.

Antes, era chef de cozinha. Para Baratto, casado com uma mulher brasileira, filha do novelista Sílvio de Abreu, o show foi a coroação de 12 anos de trabalho. Antes disso, o luthier chegou a ser chef de cozinha e trabalhou em fábricas de marcas de guitarra como Gibson e Ibanez, onde aprendeu a conceber protótipos de instrumentos de guitarristas como Joe Satriani e Steve Vai. Enquanto isso, tocou uma luterias em casa. Trabalhou como técnico de guitarra em turnês, dando assistência a bandas como Kiss e Sugar Ray. Ao longo dos anos, construí a sólida clientela que o sustentaria quando largasse o emprego na Ibanez.

"Eu tentei ser chef por alguns anos. Não sabia o que queria da vida. Tampouco acreditava que podia me sustentar como luthier", conta. "Sou de Hibbing, em Minnesota, a cidade de Bob Dylan. Lá, todos temos uma ética de trabalho disciplinada. Trabalhamos duro", completa.

Entre seu clientes, estão também Tom Waits, que toca um banjo cigar box, no disco Real Gone, Joe Perry, que usa uma guitarra no novo disco do Aerosmith, e PJ Harvey que encomendou uma de suas rabecas, chamada Cigfiddle. O grande momento de Baratto, que sabe português o suficiente para brincar que suas guitarras não são "baratas", e sim, em conta (vão de US$ 700 a US$ 5 mil), é quando ele entrega a guitarra a um cliente.

"Confeccionar um instrumento é algo muito pessoal. Às vezes, fazemos um e damos de presente, mas ele acaba esquecido, em um armário qualquer. É diferente quando alguém vem à sua loja. Conversamos sobre a sensação da guitarra e, no final, você entrega ela à pessoa e vê um sorriso. É um momento precioso e íntimo com uma pessoa que você não conhece. É o ápice de tudo", conta.

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