WILTON JUNIOR / ESTADÃO
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A verve artística de uma estilista das estrelas

A convite do ‘Estado’, estilista Rita Comparato aplica estampas abstratas em imagens que foram notícia em 2019

Maria Rita Alonso  , Especial para o Estado

29 de dezembro de 2019 | 07h00

Rita Comparato tem verve artística. Para criar quimonos, sarongues, chemises e macacões supercoloridos, ela não persegue tendências no Pinterest, muito menos copia hits de grifes internacionais. Moda, para ela, é um canal de expressão autoral. Revelada no início dos anos 2000, ao lado do amigo Dudu Bertholini, na Neon, Rita hoje comanda sua nova marca, a Irrita, com loja e ateliê próprios, onde desenvolve peças que cativam personalidades cult, como a atriz Camila Pitanga e a cantora Céu, gente que frequenta galerias de arte, que gosta de cinema e investe em viagens fora do lugar-comum. 

Exímia modelista (coisa rara entre os estilistas do País), nos últimos anos, Rita passou a desenhar também a maioria das estampas da marca, que contam com um jogo contrastante e intenso de cores, capaz de dissipar o tédio do dia a dia e trazer alegria ao guarda-roupa. As estampas surgem da observação de animais, de coisas comuns, de filmes, de pessoas na rua, das flores, da natureza... “Vêm da poesia do momento”, resume ela. Por causa do sucesso de seu trabalho, Rita foi convidada pelo Estado a ilustrar, com suas estampas abstratas, algumas imagens marcantes de 2019 na área de cultura. 

Depois de uma viagem ao Vietnã, Laos e Camboja, Rita compôs as estampas da galinha d’angola e do elefante em traços de nanquim, já consideradas clássicos da Irrita. Em Boipeba, na Bahia, se interessou pelo design de um caju suculento, que deu origem às colagens transformadas na estampa tropical da coleção de verão 2020. Nada é figurativo. “Rita tem um traço feito à mão lindo, que flerta com o abstrato. A personalidade dela grita nas estampas”, diz Dudu Bertholini, o ex-sócio.

Sua cartela de cores explora os meios tons, as variações de marrom e ocre, além de nuances esmaecidas misturadas a tons fortes ou cítricos. Para criar as padronagens a partir de seus desenhos, a estilista conta com a ajuda do artista plástico Rafael Silvares. Na coleção atual, ele também assina duas estampas: uma abstrata e outra geométrica, que remete a máscaras africanas. No próximo inverno, Rita já acertou uma outra colaboração, a do ilustrador Filipe Jardim, amigo dos tempos da Neon.

Desde a primeira coleção da Neon – e depois nos desfiles superdisputados na São Paulo Fashion Week –, a estamparia sempre foi um destaque. A marca nasceu em 2003, teve um sucesso meteórico (vestia estrelas como Ivete Sangalo, brilhava na SPFW, tinha espaço em lojas internacionais como a Macy’s) e faliu em 2013, em meio a uma crise financeira e uma situação pessoal particularmente difícil para os sócios, que abusavam das festas e das drogas. “A Neon era a marca de uma dupla: a Rita ficava na criação, na produção, no dia a dia do ateliê e eu muito mais na estratégia, na comunicação e no styling. Eu sinto tanto orgulho do que fizemos juntos. A gente tinha muita sinergia. Um potencializava a criatividade do outro”, lembra Dudu.

Hoje, a sociedade de Rita é com Lia Camargo, uma ex-executiva, com longo currículo em corporações e multinacionais. Juntas, Lia e Rita continuam uma história que tem tudo a ver com a evolução do negócio da moda no Brasil. E da economia criativa em geral.

Enquanto a Neon viveu o auge dos desfiles espetáculos da São Paulo Fashion Week e ajudou a moldar o conceito de uma brasilidade estética, a Irrita é uma empresa dos tempos de nichos e influências dispersas. Ali, as roupas são produzidas sempre em linho, seda e viscose. Qualquer modelo pode ser confeccionado em qualquer um desses três tecidos, aumentando ou diminuindo o grau de sofisticação e o valor da peça.

A estrutura das roupas da Irrita, de certa forma, faz um resgate dos trabalhos anteriores da estilista, primando pela arquitetura e pelo caimento das peças. Muitas vezes, seus moldes são construídos como origamis, surgindo de dobraduras. “A Rita é uma modelista espetacular. É criativa e técnica ao mesmo tempo”, diz Gloria Kalil, consultora de moda. “Para tornar-se uma boa modelista é preciso ser racional, pragmática. É difícil. Rita sabe que sem a modelagem, não existe roupa, não existe produto, não existe moda”, finaliza a jornalista Lilian Pacce.

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