Alessandro Bianchi/Reuters
Alessandro Bianchi/Reuters

A versão atual da vergonha

Até agora, 'Shame' é o concorrente preferido entre os críticos que estão em Veneza

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2011 | 00h00

Shame, de Steve McQueen, lidera até agora as preferências dos críticos em Veneza. Bem, pelo menos uma boa amostra desses profissionais, que dão suas "estrelinhas" ao boletim diário do festival, o Venews. Nem sempre acertam no final, mas a opinião deles tem o seu peso.

E, no caso, até que votaram bem, pois Shame (Vergonha) é um filme de qualidade, além de trazer o ator da hora (ao menos para o público feminino), Michael Fassbender. Ele faz um executivo irlandês que trabalha em Nova York e é viciado em sexo. Sua irmã (Carey Mulligan) não fica atrás. Enrolada com seus problemas, pede para morar com o irmão por um tempo. Os dois compartilharão suas neuroses de forma democrática.

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O filme acompanha a trajetória de Brandon (Fassbender) por uma Nova York noturna, cheia de atrações. Sissy (Carey) é uma cantora carente e promíscua. Nada se sabe da origem dos personagens. Apenas que a família veio da Irlanda e criou os filhos em condições precárias. "Preferi deixar na sombra essas informações, para evitar psicologismos", disse McQueen. "Fica mais interessante."

Como também funciona o registro quase documental da Nova York noturna, imersão no bas-fond chique da cidade. "Poderia ter filmado em qualquer cidade grande, mas Nova York parece simbolizar como nenhuma outra esse lugar das possibilidades ilimitadas", explica o diretor.

A ideia de base era essa mesma: submeter um personagem fraco (embora na pele de um macho alfa) a todas as tentações possíveis, até que, exaurido, ele constate a sua derrota. "É um paradoxo que Brandon enfrenta: num tempo e lugar em que pode se sentir totalmente livre, ele, no fundo, não tem liberdade nenhuma." Talvez seja o paradoxo principal da vida contemporânea. Por se possuir tudo em excesso, nada tem valor; não se tem nada, de fato. É a verdadeira vergonha da nossa era, expressa no título. Não encontramos equilíbrio entre a infinita possibilidade de consumo e o limite inevitável da nossa capacidade de absorção. Tornamo-nos presas dessa liberdade. Por isso, faz todo o sentido Steve McQueen qualificar seu filme, no qual só se veem drogas e sexo, de político.

Fora da competição

Até agora o festival apresenta bom nível, mas nenhum dos concorrentes encantou. Nenhum deles rugiu como Leão, para usar a gíria local para o filme que apresenta pinta de vencedor. No entanto, alguns trabalhos em mostras paralelas ou fora de concurso têm mantido acesa a chama do festival.

É o caso, por exemplo, de Cut, filme difícil de classificar, talvez o mais violento libelo contra a desumanização do cinema que já tenha sido feito. De Amir Naderi, expoente do cinema novo iraniano, o filme denuncia o cinema comercial, feito apenas por dinheiro e que estaria roubando a alma verdadeira dessa arte. É uma história exemplar, com jeito de metáfora. Shuji é um cineasta e cinéfilo apaixonado. Descobre que o irmão, que financiara alguns dos seus filmes, era membro da Yakuza e fora assassinado por não pagar dívidas. Shuji herda o seu débito e encontra a maneira mais incrível de pagá-la, dando, literalmente, a cara para bater. Num determinado momento, que não convém esclarecer muito, aparece uma lista dos cem maiores filmes de todos os tempos. Entre eles, dois brasileiros: Pixote, de Hector Babenco, e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha. "Era filme para estar na competição principal", disse o veterano crítico Michel Ciment, da francesa Positif.

Outro caso é o de La Folie Almayer, de Chantal Akerman, adaptação de um relato de Joseph Conrad, com os traços estilísticos da diretora belga: longos planos, ação rarefeita, diálogos literários. Ambientado no Sudeste Asiático, tem no desgarramento do homem ocidental diante do Outro o seu tema preferencial. A versão de Akerman é brilhante.

VENEZIANAS

Mico

Estava demorando, mas aconteceu a primeira baixaria na sala de coletivas de Veneza. Antes de fazer sua pergunta, uma jornalista italiana declarou-se ao ator Michael Fassbender: "Mike, fique tranquilo, eu te espero quanto você quiser".

Dupla ação

Aliás, Fassbender está em dois filmes da competição. Além do adicto sexual Brandon, de Shame, ele vive o doutor Carl Gustav Jung em A Dangerous Method, de David Cronenberg. Aliás, Jung achava que Freud estava errado ao supor um fundo sexual em todas as neuroses.

Fama

A imagem da brasileira como mulher bonita corre também pelas telas do cinema. Em Shame, há uma belíssima garçonete patrícia que serve Michael Brandon (Fassbender) em um clube nova-iorquino. Um amigo de Brandon passa-lhe uma cantada e diz que "ela ficaria decepcionada se eu não tentasse".

Escrevendo sobre o documentário Crazy Horse, de Frederick Wiseman, um cronista italiano diz que as coristas são altas e belas, "verdadeiras brasileiras".

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