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A versão 'afro' de um melodrama de Sirk

Lee Daniels não deixa de ter feito o seu 'Imitação da Vida' com a história de 'O Mordomo da Casa Branca'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2013 | 02h14

Quentin Tarantino reabriu, pela via da aventura (fantasia?) - e com as ferramentas do spaghetti western -, as feridas da escravidão na consciência norte-americana. Ganhou dois Oscars, roteiro original e ator coadjuvante (Christoph Waltz), por Django Livre. Existem agora dois filmes que também abordam o período e estão pavimentando sua candidatura para o próximo Oscar. O Mordomo da Casa Branca estreou na sexta. 12 Years a Slave fica para mais adiante. O Mordomo tem sido descartado como 'novelão' por parte da crítica brasileira. Talvez o tema não bata aqui da mesma forma que nos EUA, mas o repórter testemunhou algo raro. Em Nova York e Los Angeles, as plateias, espontaneamente, aplaudiram os longas de Lee Daniels e Steve McQueen no fim das sessões. E não eram sessões de festivais - os filmes estão no circuito comercial.

No Rio, Lee Daniels disse ao repórter algo que talvez pareça inusitado - Precious, que lhe deu projeção, é seu pior filme. O preferido é Paperboy/Obsessão e O Mordomo se situa no meio, 'quase tão bom', ele diz. Nos EUA, o filme chama-se O Mordomo de Lee Daniels, o que pode parecer excessivo - com exceção de Federico Fellini, não é frequente que autores coloquem os nomes nos próprios filmes. Daniels jura que não teve nada a ver com isso. Foi decisão dos executivos do estúdio, já que havia uma questão de direitos impedindo que ele usasse só 'O Mordomo'.

O filme começa numa antessala da Casa Branca, com o velho Forest Whitaker de volta ao cenário de boa parte de sua vida. Há um corte e começa o flash-back, que o lança no passado distante, quando ele, garoto numa plantação de algodão, viu a mãe escrava ser estuprada e o pai ser morto pelo sinhozinho branco. Por piedade, ou consciência do mal praticado por sua descendência, Vanessa Redgrave - tinha de ser ela - acolhe o menino na casa senhorial e o ensina a 'servir'. É o que ele fará a vida toda, como mordomo de sucessivos presidentes na Casa Branca.

É interessante acompanhar grandes momentos da história dos EUA no século 20 desse outro ângulo - da cozinha da Casa Branca. O assassinato de John Kennedy, o escândalo de Watergate. Mas as questões do filme são outras. Por que bebe a mulher do mordomo? Ela certamente tem uma vida confortável de classe média, e isso só podia ocorrer em Washington D.C., numa época em que a segregação ainda era praticada no Deep South, o Sul Profundo. Talvez exista aí um desgosto pela (eterna) submissão do marido, mas essa mulher resiste, à sua forma. Expulsa a ativista negra, estilo Angela Davis, companheira do filho e que quer humilhar o mordomo. Expulsa o 'amigo' que avança e quer fazer dela sua amante. Não é um 'novelão', mas um melodrama, nos moldes do melhor Douglas Sirk, a versão negra de Imitação da Vida, o clássico sirkiano de 1959.

Boa parte de O Mordomo da Casa Branca trata justamente da luta por direitos civis. O filme termina no momento em que, na Casa Branca, há um presidente negro, mas o protagonista da história não está mais lá para servi-lo. Ninguém, tem bola de cristal para antecipar que O Mordomo irá para o Oscar. É muito possível que, no limite, vá o 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen, com Ejiofor Chiwetel. Mas será um escândalo se Forest Whitaker e Oprah Winfrey não forem indicados. A Academia, que não a premiou como coadjuvante, em 1986 - por A Cor Púrpura, de Steven Spielberg -, tem agora a chance de fazer justiça. Oprah é excepcional.

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