''A verdadeira amizade entre homens é rara''

ENTREVISTA

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2010 | 00h00

Adam Rapp

DRAMATURGO, DIRETOR E CINEASTA

Aos 42 anos, o norte-americano Adam Rapp desdobra-se em diversas atividades, mas sempre em busca do mesmo foco: retratar angústias contemporâneas. Por e-mail, ele respondeu às seguintes perguntas.

Os detalhes e as ambiguidades parecem interessá-lo.

Sim, quando escrevi a peça, eu estava interessado em mostrar como transformamos momentos insignificantes em fatos épicos. Quando estamos sofrendo de solidão, nos agarramos ao mais insignificante dos gestos dos outros. Receber toques de outra pessoa, não importa quão insignificante isso possa significar para a outra pessoa, pode ter consequências devastadoras para outra. Houve períodos da minha vida, quando estava extremamente vulnerável, que me influenciaram a escrever a peça, especialmente no que diz respeito a Matheus.

Seu texto também faz referências tocantes à amizade.

Acredito que a verdadeira intimidade entre os homens - especialmente heterossexuais - é muito raro. Na minha experiência, há fortes linhas desenhadas. Não falamos sobre nossas vulnerabilidades, nossos medos, nossa fragilidade, o que nos mantêm acordados à noite. Somos ensinados que é uma fraqueza de certa forma feminina. O que me importa (e também a Davi e Matheus) é que, apesar de amargo, a amizade deles encontrou um lugar volátil, e que o profundo conhecimento que cada um tem da dor do outro os mantêm unidos. Matheus é um verdadeiro artista, enquanto David só pode falar sobre a arte. Por outro lado, David é um homem de ação, enquanto Matheus está quase aleijado pela ideia de agir. Ambos entendem essas forças e também as fraquezas um do outro.

A questão da solidão, portanto, é essencial?

Há definitivamente um vírus da solidão na peça. Matheus anseia por uma ligação sentimental com alguém, mas seu confinamento não faz bem às duas partes. David, ao contrário, não enfrenta esse problema, mas sua desumanidade apenas intensifica um vazio interior, que é também uma espécie de solidão. E Christine/Ana estabelece com os homens uma base equilibrada, embora mal saiba como agir com qualquer um deles. Ela fragmentou sua própria identidade e, com a reinvenção constante de si mesma, também se atolou na solidão. Acho que todos querem desesperadamente sentir algo muito real, mas simplesmente não sabem o que é bom para eles.

O texto foi escrito em 2005. Hoje seria diferente?

Bem, não conseguiria escrever a mesma peça hoje. Eu estava sofrendo terrivelmente com depressão e precisava de ajuda. A escrita da peça manteve-me ligado ao mundo. A situação melhorou e agora sei que eu não poderia agora escrever com mesma autenticidade.

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