A verdade, sempre inalcançável

Coletânea revela as diferentes faces da obra do austríaco Karl Popper, nome fundamental do saber contemporâneo

Regina Schöpke, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2010 | 00h00

Quando Diógenes Laércio, em sua biografia dos antigos filósofos, afirmou que "o ceticismo é a sombra da filosofia", ele parecia querer dizer, entre outras coisas, que a dúvida é uma espécie de fantasma que assombra os filósofos ou, mais exatamente, que talvez a verdade nunca seja totalmente "verdadeira". Explicando melhor: o ceticismo é uma espécie de certeza da incerteza, ou seja, é saber que nada se sabe ou que sempre se saberá apenas em parte e nunca de modo absoluto. E aqui não estamos falando apenas da escola cética grega, mas de uma orientação geral do espírito para sempre se perguntar se aquilo que se sabe é mesmo verdadeiro ou se não passa de uma ilusão. É claro que esta tendência se opõe ao racionalismo mais dogmático, que se assenta não apenas na convicção de que podemos chegar à verdade das coisas e dos fatos, mas de que ela existe de modo único, universal e válido para todos os tempos e lugares.

Sem dúvida, Diógenes Laércio conhecia bem estas duas tendências, mas, ainda assim, ele atribui à filosofia a marca de um ceticismo puro, originário - talvez porque, para ele (como, aliás, também para nós, sobretudo, depois de Nietzsche), a ideia de verdades absolutas e de conhecimentos indubitáveis acaba levando à produção de mitos e dogmas, onde o próprio saber termina por ganhar ares de religião. Certamente, nada é menos filosófico do que a ausência de crítica e reflexão. Sim... de fato, a filosofia apareceu (e é isto que lhe confere um caráter singular e original) como uma forma de "debate crítico", para usar as palavras de um dos maiores epistemólogos do século 20: o vienense Karl Popper (1902-1994).

De fato, Popper considerava realmente extraordinária a aparição da filosofia grega, que ele entendia como um diálogo permanente com o mundo, como uma busca incessante pela verdade das coisas. Em um artigo (que integra a edição de seus Textos Escolhidos, lançada pela Contraponto), Popper apresenta os primeiros filósofos como aqueles que estimulavam seus próprios discípulos a atirarem mais longe o dardo do saber (ele excetua apenas Pitágoras, que ainda conservaria a antiga postura do sábio como "mestre da verdade"). É isso que ele chama de "debate crítico": este diálogo, direto ou indireto, que se estabeleceu entre as escolas filosóficas e também no interior de cada uma delas, mostrando que o autêntico racionalismo é aquele que reconhece as limitações do conhecimento, embora jamais desista de buscar a verdade, ainda que ela sempre lhe fuja.

Sim... para Popper, a verdade é inalcançável, embora seja possível aproximar-se dela, e é assim que ele cita os pré-socráticos Xenófanes, Heráclito e mesmo Demócrito para justificar sua ideia de que nunca teremos absoluta certeza de que algo é plenamente verdadeiro, embora possamos saber quando é falso. Aliás, esta é a tese fundamental de Popper: podemos até não saber exatamente qual é a verdade das coisas, mas sabemos o que não é verdadeiro e é isto que determina o progresso da ciência (e também o próprio progresso humano, como ele mostra em outros artigos contidos nesta coletânea).

Popper, que ficou célebre justamente por estabelecer que o autêntico método científico é o da falsificabilidade ou refutabilidade, também conhecido como falseamento ou falsificacionismo (única forma, para ele, de lidar legitimamente com as "verdades" científicas), é um crítico implacável da indução (que, desde Aristóteles, teria dado à ciência o caráter de um saber seguro e indubitável). Para Popper, a ideia de que podemos atingir com segurança a verdade ou de que é possível testar empiricamente uma teoria revelam-se ambas profundamente equivocadas, já que a primeira não passa de uma construção mental, racional, e a segunda não nos oferece nenhuma possibilidade de confirmação irrestrita e absoluta. Afinal, como já dizia Hume, o que chamamos de "lei científica" pressupõe a transcendência do sensível e da percepção, pois é somente indo além das próprias sensações que se pode afirmar que tudo sempre se dará da mesma maneira. Quando temos, por exemplo, a ideia de que o sol vai se "levantar" todas as manhãs, isto não nasce apenas da observação empírica, mas de uma "crença na repetição", sem a qual não se pode fundar a ciência nem estabelecer qualquer uma das suas leis.

Esta notável coleção de 30 textos (selecionados pelo renomado filósofo britânico David Miller), apresenta as diversas facetas da obra de Popper, dividida entre a teoria do conhecimento, a filosofia da ciência, a metafísica e a filosofia social. Em tudo e por tudo, trata-se de uma excelente oportunidade para vislumbrarmos, em seu conjunto, um pensamento que contribuiu decisivamente para a reflexão do saber contemporâneo, no qual - tal como o Aquiles do paradoxo de Zenão - cada vez mais se aproxima da verdade, sem nunca poder alcançá-la.

REGINA SCHÖPKE É FILÓSOFA, HISTORIADORA E AUTORA DE MATÉRIA EM MOVIMENTO: A ILUSÃO DO TEMPO E O ETERNO RETORNO (MARTINS)

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