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A verdade seminua

Fazer revista de mulher pelada com Censura e sem photoshop era dureza

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2018 | 02h00

Para desgosto da dona Wanda, lá em Minas Gerais, a carreira jornalística - tão acidental quanto apaixonada - do filho bacharel em direito comportou duas passagens por aquilo que o povo chama de revista de mulher pelada. Além do desconforto social, dava-lhe trabalho explicar que o rapaz, nessas publicações, não se incumbia “daquela parte” (o que em ambos os casos era verdade), e sim da parte escrita.

Para o referido bacharel, ao contrário, foram duas empreitadas bem gratificantes, em especial a segunda, vivida por sete anos e meio na Playboy, no que veio a ser, sem reclamações, sua mais extensa permanência num emprego. Mesmo os dez meses passados na Status seriam hoje experiência irrepetível, de vez que os leitores (ou vedores?) desse segmento da imprensa vieram a encontrar na internet moças em mais de um sentido animadas, tornando obsoleto o escopo principal das revistas de mulher pelada.

Ou nem tão pelada assim, nas páginas da pioneira Status, cuja primeira encarnação iniciou-se em 1974, num tempo em que nada, pelado ou vestido, chegava às bancas sem ter passado sob o olho abrasivo da Censura. Já não me lembro se foi ali ou na Playboy, surgida pouco adiante como Homem, que a pudibunda tesoura liberou, de certa moça, apenas um seio, vetando o que por natureza lhe fazia par, decisão que ainda hoje me deixa sonhador: e se a gente fizesse o mesmo com as tetas do serviço público?

Na Status, fui primeiro colaborador, tendo entrevistado em Paris, onde vivia, o romancista peruano Manuel Scorza, com quem acabei entabulando camaradagem e que viria a morrer em acidente aéreo na Espanha, em 1983. Quem me pautou foi Gilberto Mansur, diretor de redação que, sendo escritor, fez da Status uma publicação com apelo também literário. Lembro-me de um concurso de contos que teve entre os jurados Jorge Amado e Otto Lara Resende, e de um punhado de edições especiais abastecidas com a produção de contistas brasileiros e latino-americanos.

Resgatado por Gilberto Mansur após o naufrágio do Jornal da República, em janeiro de 1980, tive breve porém inesquecível passagem pela Status, cuja redação vi ser cruamente transplantada da Avenida Paulista para o pardieiro de antiga fábrica na Lapa de Baixo - e põe baixo nisso: a poucos metros de uma linha férrea, o casarão tremelicava a cada trem que passava, fazendo cair do teto sem forro uma ancestral fuligem, negro fantasma da antiga indústria a polvilhar nossas cabeças. Espartano, soturno, irrigado por copiosas goteiras, o refeitório me fazia pensar num orfanato londrino visto em filme baseado em Dickens.

Mas era bom estar ali, ao lado do Mansur, do Zezé Brandão, da Lynrose Patti, secretária executiva, e das meninas da produção, além do Rui Douglas Cattai, que vinha a ser todo o nosso departamento de arte, e em cuja estupefata presença, certa vez, uma candidata a posar pelada resolveu sacar seus melhores argumentos, tirando ali mesmo a roupa. Literalmente ralava, o Douglas, pois não existia ainda o photoshop que permitiria terraplenar celulite, estrias e verrugas.

Houve também a história, já contada aqui, da guerrilheira lasciva. Um ensaio temerariamente ambientado, sob Censura ainda acesa, em dependências da base aérea de Cumbica, nas imediações do que viria a ser o aeroporto de Guarulhos. A produção contou com a aquiescência e colaboração de autoridades aeronáuticas locais, que gentilmente cederam, além do cenário - um trecho de mata para arremedar Sierra Maestra à brasileira -, um jipe das Forças Armadas e dois praças, que imagino para sempre boquiabertos depois de terem sido destacados não para as ásperas tarefas de sempre, e sim para contracenar com uma guerrilheira nua.

Para mim ficou também a lembrança de Samuel Wainer, jornalista legendário que assinava na revista a página Por Trás da Cortina, e que morreria durante os breves meses em que lá estive.

Vizinha à nossa, havia a redação de uma revista “de cavalos e cavaleiros” - e não deixou de me impressionar o fato de existirem naquele casarão duas publicações com títulos em língua morta, a Hippus e a Status.

Pedestre que sou em mais de uma acepção do termo, confesso que não cheguei a me interessar pelas pautas equestres com que o editor Chuck Woodward montava uma revista editada com rédea e equipe ainda mais curta. Quase quatro décadas depois, no entanto, ainda leio na memória, inapagável, a chamada de capa de uma reportagem na Hippus sobre a caça à raposa. A intenção teria sido evocar a fórmula com que Oscar Wilde descreveu essa cruel modalidade de lazer de macho endinheirado: “The unspeakable in pursuit of the uneatable”. Em português, algo como “o indizível em busca do incomível”. A Hippus preferiu outra versão - e posso imaginar o pasmo de quem viu na banca uma revista anunciando “a intragável perseguida pelos inomináveis”.

A temporada na Playboy? Calma aí, fica para outra vez.

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