A verdade segundo Thiago Pethit

Inspirado em Brecht e Weill, compositor cria cidade fictícia com canções baseadas em seu próprio universo.

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

16 de março de 2010 | 00h00

A canção brasileira tem em seu histórico grandes figuras que incorporaram as experiências com o teatro em seu trabalho musical, como é o caso de Ney Matogrosso, Elba Ramalho e Maria Bethânia. Seus shows são grandes montagens, com carga dramática e vistosos aparatos cênicos. Bethânia aspirava a ser atriz desde criança e, ao longo de sua carreira de cantora, vem trabalhando com os melhores diretores teatrais. A diferença é que Thiago Pethit e Karina Buhr não são só intérpretes, mas compositores. E as influências das artes cênicas se refletem na forma como compõem suas canções.

Thiago foi buscar inspiração em Bertolt Brecht. E Kurt Weill, parceiro do dramaturgo alemão, é sem dúvida uma de suas referências, como Tom Waits e Leonard Cohen. "No fundo são todos músicos que têm esse aspecto do vaudeville. Cohen escreve umas coisas muito pessoais, que é também um pouco por onde eu caminho." Na cidade imaginária criada por Thiago em Berlim, Texas, a lousa que serve de capa do CD e de cenário do show sintetiza a ideia do "preto no branco", daí as canções confessionais. "Minhas letras são superpessoais. Tem uma que não é, Voix de Ville, em francês, e é sempre mais difícil de eu fazer", diz o autor.

Daí a transparência não só de intenções, mas de resultados. Ao contrário de certos imitadores de Waits, Thiago evita o pastiche. O xis da questão não é ter boas fontes, mas o que fazer com elas. "Quando gravei o disco tinha essa questão das referências meio antigas, essa Berlim, Texas como algo dos anos 20 ou dos anos 60. Ao mesmo tempo sabia que isso só realmente seria interessante pelo fato de eu como pessoa sou muito antigo (não moralmente) e muito contemporâneo."

É notável a evolução do trabalho registrado no EP de 2008 para o álbum. Uma das canções, aliás, faz parte dos dois trabalhos. É White Hat, que ganhou arranjo bem mais interessante. Bastou acrescentar detalhes de um mínimo de instrumentação e vocais mais trabalhados.

Há quem venha comparando Thiago com Tiê, por uma certas semelhança na sonoridade, com uma pitada do que se convencionou chamar de pós-folk (Hélio Flanders, do Vanguart, aliás, participa de uma das melhores faixas, Forasteiro), e um mínimo de instrumentação, acústica, baseada em piano, com acréscimo de cello, bateria, violão e percussão. "Tiê me deu umas aulinhas de piano e violão e foi quem abriu a minha caixinha de Pandora. Eu trabalhava com teatro e estava começando a ficar descontente com o fazer teatral, porque eu descobri que gostava muito mais da teatralidade, que é o que Brecht tinha, do que do teatro em si."

Dono de bela voz, autor e intérprete inteligente, observador atento, Thiago fez um álbum charmoso, denso, caloroso e sensual como um cabaré. Tem algo de Beirut também, mas imprime sua personalidade em cada detalhe, e em qualquer língua.

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