A verdade nua na obra de Lucian Freud

Autor de despudorados retratos, o neto do criador da psicanálise ganha mostra com 6 telas, 44 gravuras e 28 fotos

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2013 | 02h13

Lucian Freud não era como seu caótico amigo Francis Bacon, revela o curador da mostra do pintor, Richard Riley. Bacon preferia usar fotografias como referência, e não modelos vivos. "Já Freud gostava da coisa real, da vida, do contato com seus retratados, em geral amigos e conhecidos, entre os quais o pintor David Hockney (foto maior desta página)", diz, observando que, de fato, existiam afinidades estilísticas entre Bacon e Freud, especialmente no começo de carreira, mas Freud mudou muito depois dos anos 1960, como provam as gravuras e pinturas da mostra, em especial a de um pássaro morto, um cão dormindo e uma jovem nua ao lado de um ovo.

O curador-chefe do Masp, Teixeira Coelho, destaca entre os óleos da exposição exatamente Jovem Nua com Ovo (1980/81), além do retrato da primeira mulher de Freud, Kitty Garman (1947/48), Jovem com Rosas. "A jovem com rosas está grávida e apreensiva", analisa, apontando o simbolismo dos espinhos ameaçadores da flor que segura. O curador do museu também compara a pintura a "uma Mona Lisa do pós-guerra", evidentemente menos plácida que a de Da Vinci. Mais relaxada é a garota com um ovo sobre a mesa lateral, uma das telas preferidas da portuguesa Paula Rego, que a selecionou há dois anos para uma exposição retrospectiva de Freud na cidade do Porto, em Portugal. A mostra traz ainda dois retratos, um em têmpera sobre madeira, Jovem Num Vestido Verde (1954), e o óleo Cabeça de Mulher (1970). Mas a quintessência da sua pintura, segundo Teixeira Coelho, é a cabeça de um galo morto, pintada em 1951. "É uma espécie de resumo de sua arte."

Há três anos o Masp tenta trazer a exposição de Lucian Freud, mas seu curador-chefe esbarrou no patrocínio, apesar da fama do pintor. Ou talvez por causa dela. Os patrocinadores não queriam seus nomes associados a um pintor automaticamente identificado com a nudez de corpos deformados ou de tipos bizarros jogados no sofá como cães sonolentos. Freud, afinal, sempre foi antiidealista por natureza, um realista avesso ao expressionismo e ao surrealismo, duas escolas às quais os críticos o tentaram vincular no início de sua carreira. Tanto é verdade que o crítico Martin Gayford, retratado por ele, assustou-se com o realismo da pintura, que revelou, segundo ele, a "feiura da velhice" e seus segredos.

Freud começou timidamente, pintando pequenos nus nos anos 1950. Foi só em 1966 que ele experimentou em grandes dimensões e definiu seu estilo, ao retratar uma mulher com o seio exposto e um cão branco numa cama, que vinha a ser justamente sua esposa, Kitty Garman, filha do escultor Jacob Epstein. Muitos ensaístas, entre eles Edward Cheney, tendem a relacionar sua cama ao divã psicanalítico do avô Sigmund Freud e seus modelos, a múmias egípcias, corpos sem vida, macilentos, à espera de um semideus artista que devolva a ela sua imagem real. "Retrato as pessoas não por aquilo que elas parecem ser, e não exatamente como se parecem, mas do modo que são", dizia.

O fotógrafo e pintor David Dawson, seu derradeiro modelo, retratado na inacabada tela, Portrait of the Hound (2011), revela que Freud jamais sugeria a seus modelos o modo de sentar ou deitar. "Ele estava em busca de um ato inconsciente que comandasse os movimentos, sempre pedia que fôssemos nós mesmos, desejando com isso que os modelos se equiparassem a uma presença abandonada no quarto, de modo a garantir liberdade para que ele inventasse a pintura".

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