Divulgação
Divulgação

A velhice é posta nos palcos por duas gerações teatrais

'Epitáfio' e 'As Duas Mulheres que Dançam' ecoam tema que esteve em toda a temporada do ano

Jefferson Del Rios, Especial para O Estado de S. Paulo

08 de dezembro de 2013 | 22h30

A poetisa norte-americana Sylvia Plath escreveu que “morrer é uma arte como outra qualquer/ Eu a faço extremamente bem”. Frase premonitória de uma depressiva (Plath suicidou-se aos 30 anos, em 1963). Ela parece ecoar na temporada teatral do ano que abordou a velhice e doenças da idade (Alzheimer) ou solidão de quem fica só. A finitude que chega. Entre várias outras peças, o tema está em Epitáfio e As Duas Mulheres que Dançam.

Epitáfio, apesar do título sem rodeios, segue em outra direção, a da viagem dentro da memória como jogo de armar. O tempo que vai e volta ao sabor de evocações. O autor e diretor Bernardo Fonseca Machado não pretende ser desalentador, ao contrário. Os seus quatro personagens, Dédalo, Miguel, Nora, Irina e Sebastião, enfrentam, ou suportam o envelhecimento de diferentes maneiras.

O primeiro nome, além de estar na mitologia grega, faz lembrar Stephen Dedalus, do romance Ulisses, de James Joyce, e indicam alusões literárias do autor. Bernardo também estudou antropologia, que no caso serve como tênue camada de filosofia sobre o enredo. A questão da finitude que, místicos e guerreiros visionários à parte, inquieta a humanidade desde sempre. O que é uma vida inteira ou a vida em um dia (mesmo que na imaginação)? A ação realista e centrada na atualidade de Epitáfio transcorre ao longo de vinte anos, quando filhos se veem nos pais e vice-versa.

O cenário abstrato deixa ao elenco a tarefa de criar um sentimento do mundo com gestos precisos, cortes de diálogos e atitudes recheadas de pausas e olhares. Na aparência, são as conhecidas fases da existência, dos ritos infantojuvenis às cargas difíceis que o tempo coloca no caminho de um casal que lá atrás fez opções complexas (um casal é uma engenharia humana sempre complexa, inevitável obviedade). Nela, entre outras coisas, cabem filhos, havidos ou adotados, e eles são espelhos do que se quis, sonhou, teve plena realização ou se perdeu.

É um texto sofisticado de um dramaturgo que ainda vai chegar ao estilo/diálogo de palco, com menos empenho na literatura (o que se diz em cena não é necessariamente como está no papel). Dramaturgia pede outros ritmos e caminhos verbais. O importante, contudo, é o espetáculo ser apaixonado. Quer dizer algo e o diz com um jogo de amarelinhas joyce-cortaziano e, quem sabe, algo do labirinto de Jorge Luis Borges. A Cia ComVersão tem energia que se traduz, sobretudo, na interpretação de Ana Junqueira (a filha), um talento vibrante em plena ascensão, e na solidez mais calma de Bianca Sgai Franco (a mãe ou a filha no futuro).

Já o avesso de tudo, ou seja, a idade sem enganos está em As Duas Mulheres que Dançam, do espanhol-catalão Josep Mari Benet I Jornet. Direção de José Sebastião de Souza com Karin Rodrigues em uma fase especialmente brilhante de sua bela carreira, e na boa companhia de Amazyles de Almeida, que abre seu espaço dramático com sutileza.

É um humor pesado (uma idosa e sua acompanhante bem mais moça). Duas mulheres com problemas concretos – idade, desatenção dos parentes ou uma perda irreparável (a moça). Não terão uma relação fácil até que uma decisão sem volta se insinua e as une em um pacto em direção ao abismo, ao nada, ao que o espectador quiser.

Karin, com agilidade admirável, está quase jovem para o papel, e consegue um perfeito equilíbrio entre o bom humor e a dureza de quem sabe que ilusões são apenas ilusões. Há palavras subtendidas ou explícitas no enredo bem traduzido por Clarisse Abujamra: Alzheimer e o que sobra, o que vale a pena na existência quando até os filhos se tornam estranhos.

O espetáculo tem problemas de acabamento – sobretudo a cena final, que é a essência da obra. É um milímetro entre interpretação e o efeito da iluminação que merece ajuste. Em eventual temporada futura, o bom senso manda fazer sumir as pantufas que Karin usa. É um adereço caricato, efeito fácil, e a personagem tem personalidade forte. Assim, os dois espetáculos e as duas gerações teatrais convergem para o ponto que Bergman filmou com o título Sonata do Outono.

Tudo o que sabemos sobre:
epitafioasduasmulheresquedancamteatro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.