André Lessa/AE
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A vanguarda lusa depois de Salazar

Em edições revistas de duas obras de referência já clássicas, Massaud Moisés, professor de literatura portuguesa da USP, avalia as novas gerações de autores e seus impasses diante da herança europeia

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2012 | 03h00

Além de revistos e corrigidos, dois livros clássicos do professor titular de Literatura Portuguesa da USP, Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa (37.ª edição) e A Literatura Portuguesa Através dos Textos (33.ª edição) sofreram acréscimos para abrigar escritores contemporâneos não contemplados nas edições anteriores. Nessas obras, a história literária de Portugal depois da Revolução dos Cravos é contada com clareza e imparcialidade, características de um dos maiores especialistas no tema. Sobre os novos autores portugueses, surgidos com o fim do regime salazarista, Massaud Moisés falou ao Sabático em entrevista exclusiva. Na conversa, o mestre confirmou seu entusiasmo por nomes como os de Gonçalo M. Tavares, Teolinda Gersão e Lídia Jorge, além do apreço por outros já mortos como José Saramago e Maria Gabriela Llansol, ambos comentados nesta edição do caderno - o Nobel pela publicação de José Saramago - Tudo, Provavelmente, São Ficções; Mas a Literatura É Vida, e Maria Gabriela Llansol por três lançamentos da Editora Autêntica. 

As sucessivas edições dos dois livros de Massaud Moisés contam as principais fases históricas da literatura portuguesa, da poesia trovadoresca aos autores da geração de Gonçalo M. Tavares, passando pelos clássicos, barrocos, românticos, realistas, simbolistas, neorrealistas e surrealistas. Nesses livros do professor, a intensa atividade poética dos portugueses merece análises detalhadas, destacando-se dois poetas nascidos no mesmo ano, 1930: Herberto Helder, natural da Ilha da Madeira e associado ao surrealismo tardio, e Albano Martins, escolhido por sua concisão e outra característica pouco associada a um lírico, o erotismo.

Tanto Helder como Martins começaram a publicar antes da queda do salazarismo, assim como um dos escritores preferidos do estudioso, Vergílio Ferreira (1916-1996), que iniciou sua carreira em 1943 com O Caminho Fica Longe. Saramago pertence à mesma geração (era seis anos mais novo) e lutou pelos mesmos ideais, ou seja, contra as arbitrariedades do regime de Salazar. A prosa de Saramago (1922-2010), no entanto, parece destinada a provar uma tese, contaminada por uma perspectiva política, segundo a análise que Moisés faz de O Ano da Morte de Ricardo Reis. Já Vergílio Ferreira, embora com o mesmo empenho ideológico, começou como neorrealista mas se livrou da carga barroca que se manteve em Saramago. Segundo o professor, Vergílio é a grande figura literária dos anos 1940 em Portugal, especialmente por Mudança (1949), obra de transição entre a escola neorrealista e a literatura existencialista.

Numa comparação entre Saramago e o neorrealista Carlos de Oliveira (1921-1981), que nasceu em Belém do Pará mas foi criado em Portugal, Moisés destaca o último por seu “empenho político nada ostensivo”. Oliveira, frisa o especialista, a exemplo de outros representantes da escola neorrealista portuguesa (1940-1974), revela uma forte influência dos romancistas brasileiros do Nordeste - entre eles o baiano Jorge Amado -, que seguiu até o fim do regime salazarista. “É nesse quadro que surge Maria Gabriela Llansol (1931-2008), com narrativas que se caracterizam pela fragmentação”, observa o professor da USP. 

Em A Literatura Portuguesa, ele compara o texto desestruturador, metalinguístico, de Gabriela - “resultante da associação livre, que lembra a linguagem automática dos surrealistas” - ao hiper-realismo do pintor norte-americano Edward Hopper. Nessa desconstrução textual de Llansol, o absurdo, o fantástico e o onírico emergem da própria realidade, conclui Moisés. A diferença entre Saramago e Llansol é que a autora de Lisboaleipzig não observa essa realidade com dogmas ideológicos, compara o estudioso.

A escritora elegeu três filósofos - Mestre Eckart, Nietzsche e Spinoza - como guias nesse mundo, digamos, surreal, de personagens improváveis e conversas mais ainda. Era uma autora com olhos voltados para a Europa, mais especificamente para os autores de língua francesa e alemã (ela foi tradutora de Verlaine e Rilke). Nesse aspecto, Gabriela não se distancia de Gonçalo M. Tavares, que criou uma série com personagens que tomam emprestado nomes de seus ídolos literários (Paul Valéry, Robert Walser e outros). “A literatura portuguesa contemporânea luta por ser europeia e não ser ao mesmo tempo”, observa o professor.

Ao contrário do que aconteceu com a geração neorrealista, a vanguarda portuguesa não olha para a literatura produzida no Brasil, diz ele, a despeito da presença de editoras portuguesas que se instalaram no País. “Há uma assimetria aí, pois se lê muito mais os portugueses que os autores brasileiros, quando a nova ortografia deveria superar essas diferenças.” 

Mas, se os portugueses continuam de costas viradas para o Brasil, eles não ignoram seus vizinhos da União Europeia, especialmente os mais ricos. A escritora Teolinda Gersão, uma das preferidas do professor, autora de A Cidade de Ulisses, é a mais notória germanista (até mesmo por lecionar literatura alemã em Coimbra) entre os escritores que assinam prosa de ficção no pós-25 de abril. A Velha, um de seus contos mais conhecidos - e mais fortes da língua portuguesa, segundo Moisés - faz lembrar a Clarice Lispector do conto A Aniversariante, ainda de acordo com a análise do especialista, que destaca sua “tendência para o pormenor” e o gosto por narrativas que “culminam em tragédia e perdição”.

De Gonçalo M. Tavares, ele chama a atenção para a variedade estrutural e temática de suas séries e gosta especialmente de Jerusalém, não deixando de notar sua ambição literária ao criar uma epopeia que promove a releitura de Os Lusíadas, de Camões. E, por falar nele, é o poeta Herberto Helder quem estaria mais próximo da natureza do poema épico na modernidade, sugere Moisés, destacando Amor em Visita como sua obra-prima.

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