A vanguarda do Sertão

Músicos brasileiros de hoje em dia têm muito o que aprender com Zé Ramalho. Para começo de conversa, como adaptar o choro e o baião para um contexto vanguardista sem que essas linguagens soem forçadamente reformadas. Na esfera das palavras, como transformar poesia abstrata em canções prenhes de sentimento e imagem. Ou, no quesito vendas, como fazer um disco irremediavelmente experimental que mesmo assim tenha sucesso estrondoso.

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2011 | 00h00

Essas e outras lições podem ser tiradas do álbum de estreia do cantor e compositor paraibano, o homônimo Zé Ramalho, de 1978, que será relançado no domingo que vem pela Discoteca Estadão.

Escuro, sofrido e lisérgico, Zé Ramalho é uma obra-prima insofismável da música popular brasileira, gravada em oito canais com o Mutante Sérgio Dias nas guitarras, Alceu Valença nas parcerias, Patrick Moraz, do Yes, nos sintetizadores, e Chico Batera e Bezerra da Silva na percussão. Esse timaço é responsável pelas correntes tradicionais e modernas que vibram com a progressão do disco.

É o álbum de Chão de Giz, uma das canções mais conhecidas de Zé, cuja letra "Eu desço dessa solidão. Espalho coisas sobre um chão de giz", é onipresente em karaokês de todos os andares da sociedade.

Assim como é o álbum de Bicho de Sete Cabeças, Avôhai e A Dança das Borboletas, canção experimental, feita sob influência de LSD, em que os timbres sintéticos de Moraz se fundem com as guitarras psicodélicas de Sérgio Dias para fazer um arranjo estonteante. Sobre a poesia abstrata que predomina no disco, basta dizer que o Zé foi batizado de Bob Dylan brasileiro quando ficou famoso.

ZÉ RAMALHO

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R$ 14,90

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