Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

'A Valquíria' de Wagner volta ao palco do Teatro Municipal após 50 anos

O retorno da obra, após tanto tempo, fez da produção a mais aguardada da temporada lírica deste ano

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2011 | 03h07

Quando o deus Wotan e a valquíria Brunhilde subirem hoje ao palco do Teatro Municipal de São Paulo, não estarão rodeados pela paisagem rochosa que antecede a entrada no Valhalla, a casa dos deuses da mitologia nórdica. Vão se deparar com cenários que evocam uma sala de ex-votos de Aparecida do Norte, no interior de São Paulo - apenas um aspecto do diálogo entre a mitologia e a cultura brasileira que está no centro da concepção da montagem de A Valquíria, ópera de Richard Wagner, que estreia hoje.

Encenada pela última vez em São Paulo nos anos 50 (e, antes disso, nos anos 20), A Valquíria é a segunda parte da tetralogia O Anel do Nibelungo, estreada por Wagner em 1876. O retorno da obra, após tanto tempo, fez da produção a mais aguardada da temporada lírica deste ano. E a expectativa não para por aí: estaríamos diante do primeiro passo de uma montagem completa do Anel, inédita em São Paulo?

Responsável pela regência do espetáculo, o maestro Luiz Fernando Malheiro, diretor do Festival Amazonas de Ópera, no qual produziu o Anel entre 2002 e 2005, é cauteloso. "Sou um maestro convidado no Municipal e não é meu papel discutir a programação", diz. Ele se confessa, no entanto, feliz de poder voltar à obra - e ajuda a explicar a sua importância. "A questão é que, quando falamos em Wagner, especialmente no caso do Anel ou de Tristão e Isolda, estamos tratando de obras que foram importantes não apenas para a história do gênero e da música como um todo, mas também para todas as áreas da criação artística, que de alguma forma dialogam até hoje com conceitos instituídos por Wagner, como o de obra de arte total", diz ele, no intervalo do ensaio realizado na tarde de domingo.

O diretor cênico André Heller-Lopes concorda - e nos últimos meses estruturou sua produção em torno do diálogo possível do universo wagneriano com a cultura brasileira. Wagner, diz, com o Anel, participou ativamente do processo de formação da cultura alemã. No fim do século 19, no Brasil, se falava da criação de uma Ópera Nacional, em consonância com o momento de discussão do que seria a cultura brasileira. "Estamos acostumados a tratar como brasileiro apenas aquilo que é folclórico, mas isso é redutor. Nós somos africanos, folclóricos, imigrantes, religiosos. E é a convivência da diferença que cria o momento especial que o País vive. Na nossa vida cultural, cabem diversas manifestações - e a ópera é uma delas."

A Valquíria narra a história do deus Wotan que, na busca por um mundo baseado no amor, corrompe-se e é confrontado com sua própria falibilidade. "O que a ópera aborda, fundamentalmente, são as relações humanas, a relação do homem com Deus, do homem com o poder. Na saga da queda dos deuses, do surgimento de uma nova raça livre, está também a discussão da nossa identidade cultural. O grande desafio é unir esse conceito moderno com o tradicional, o clássico que é minha formação como diretor especializado em ópera", diz o diretor. "E quando nos damos conta de que estamos no mesmo palco que, em 1922, abrigou a Semana de Arte Moderna, que também discutiu à sua maneira a identidade nacional, o conceito se fechou na minha mente."

O elenco da produção reúne cantores brasileiros e estrangeiros. A soprano escocesa Lee Bisset divide com a brasileira Eiko Senda o papel de Sieglinde; o tenor gaúcho Martin Mühle será Siegmund e a meio-soprano paulista Denise de Freitas, Fricka; o baixo americano Gregory Reinhart interpreta Hunding; Brunhilde será vivida pela também americana Janice Baird e o alemão Stefan Heidemann canta o papel de Wotan. Mônica Martins, Maíra Lautert, Keila de Moraes, Laura Aimbiré , Veruschka Mainhard, Lídia Schäffer, Adriana Clis e Elayne Casehr interpretam as oito valquírias, reponsáveis pela famosa Cavalgada.

A VALQUÍRIA

Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/nº. Hoje, 2ª, 4ª e 6ª (dia 15), às 19 h; sáb.,às 18 h. R$ 15 / R$ 70. Até 25/11

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