A vaidade dos antropólogos

É Tudo Verdade termina no fim de semana e reprisa amanhã o polêmico Os Segredos da Tribo, de José Padilha

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2010 | 00h00

No ano passado, José Padilha já havia lançado uma bomba no É Tudo Verdade - seu documentário Garapa, em preto e branco, sem música, não era filme para lotar salas, mas o tema da fome no País é importante e precisava ser abordado, dizia o próprio diretor. Padilha voltou ao É Tudo Verdade neste ano com nova bomba. Os Segredos da Tribo abriu a 15ª edição do Festival Internacional de Documentários, no Rio.

Padilha polemiza - seu filme mostra como as pesquisas de antropólogos europeus e norte-americanos entre os ianomâmis da Venezuela, nos anos 1960, 70 e 80, não geraram conhecimento científico. Produziram, isso sim, uma imensa fogueira de vaidades no universo acadêmico. Um desses pesquisadores fala seriamente ao dizer para a câmera que os ianomâmis não existiriam sem seus livros. Pior - outro pesquisador, o francês Jacques Lizot, protegido do intocável Claude Lévi-Strauss, é formalmente acusado de abusar sexualmente de garotos indígenas. Numa das cenas mais impressionantes do novo Padilha, uma freira salesiana dá seu depoimento - diz que Lizot foi um aliado importante em programas de amparo às populações ianomâmis. Quando o assunto "abuso" vem à tona, a veneranda irmã lava as mãos - diz que é coisa pessoal, referente à intimidade do cientista, e ela não vai se meter.

O próprio Padilha define Os Segredos da Tribo como uma reflexão sobre a filosofia da ciência. Havia antropólogos à beira de um ataque de nervos no debate após a projeção do filme, no Rio. Acusavam Padilha de manipulação. Os próprios críticos dividiam-se quanto ao formato do filme. É muito falado, uma outra montagem talvez tornasse o material mais atraente - talvez. Mas, desta vez, Padilha não tem do que se queixar. Os espectadores vieram, lotaram as salas. Seu documentário foi o preferido do público na mostra nacional e, com o preferido internacional - Capitalismo, Uma História de Amor, de Michael Moore - será reprisado amanhã em São Paulo.

A 15ª edição do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade anuncia hoje à noite os vencedores dos prêmios do júri, que também serão reprisados amanhã, com os favoritos do público. O evento abrigou a 10ª Conferência Internacional do Documentário, que discutiu a integração de filmes de arquivo ao processo criativo dos diretores. O assunto esteve em pauta em filmes como O Contestado - Restos Mortais, de Sylvio Back.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.