A utopia de Jorge Amado

Em texto que será debatido no Seminário Internacional sobre o autor baiano, historiadora mostra como ele foi um intérprete do Brasil

Lilia Schwarcz, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2010 | 00h00

Jorge Amado nunca pretendeu ser intérprete do Brasil, mas sempre o foi. A Bahia que descreveu foi aquela dos costumes misturados, dos credos cruzados e gentes de muitas cores. Sua ficção é repleta de atores tão reais como imaginados: heróis saem das ruas de Salvador; personagens trazem referências a amigos, familiares ou intelectuais. Por isso, em se tratando da obra de Jorge Amado, é sempre difícil dizer onde começa a ficção e quando termina a realidade. O romancista tem também o dom de equilibrar opostos. O mundo de Amado é feito de trabalhadores, prostitutas, boêmios, mulatas fogosas, morenos espertos, professores ingênuos, mães de santo; mas ainda da elite, dos políticos e dos coronéis do cacau, com poder e hierarquia jamais questionados. Assim, sem desconhecer a desigualdade, Amado introduz em sua obra uma atmosfera que dialoga com o famoso modelo da "democracia racial", criado por Gilberto Freyre nos anos 1930. Quem sabe nunca tenha existido tal democracia, mas sua utopia fez parte do "programa" amadiano.

Se Jorge Amado esteve sempre comprometido com questões sociais do seu tempo, da mesma maneira fez da mestiçagem nossa mais profunda singularidade. Nos seus livros, o cruzamento aparece sob muitas faces e com direito a várias versões. Em Gabriela, Cravo e Canela vemos surgir não só o romance entre o estrangeiro e a morena, como a mistura de sabores, cores e aromas: um dialeto mestiço. Em Compadre de Ogum, o próprio padre incorpora um orixá, mostrando de que maneira o sincretismo religioso significava uma forma de entender a Bahia, e o Brasil. Tereza Batista é uma heroína da cor do cobre; essa falta ou excesso de cor que faz que inventemos um arco-íris de tons e subtons. Morte e a Morte de Quincas Berro D"Água traz condensada toda a arquitetura de Amado: o compadrio da pobreza, a avareza dos grupos mais abonados e o mar profundo; o mar que distingue e socializa.

Mas é Tenda dos Milagres, com o casal central composto por um baiano e uma escandinava, que representa o exemplo mais acabado dessa interpretação autoral. O romance chega a ser didático na maneira como opõe o herói da obra, Pedro Archanjo (com sua visão positiva da miscigenação) ao professor Nilo Argolo, que acreditava nas teorias que viam na amálgama de raças nossa suprema degeneração. Fácil notar que Amado não só cria sua mestiçagem e a insere no corpo de seus personagens, como mistura ficção e realidade. Nilo Argolo tem inspiração direta em Nina Rodrigues, famoso professor na Escola de Medicina da Bahia, que no início do século 20 ainda defendia esse tipo de visão negativa do cruzamento. Para Nina, o País, assim misturado, não tinha futuro; já para Amado (e Pedro Archanjo) ocorria o oposto: era a mestiçagem que representava nosso "elixir". No mesmo romance, Archanjo faz uma declaração dos princípios defendidos por seu autor: "Se o Brasil concorreu com alguma coisa válida para o enriquecimento da cultura universal foi com a miscigenação, ela é nossa contribuição para a humanidade." Contra as teorias deterministas, em voga até os anos 30, Amado compactuava com o antídoto da época modernista que mudaria a imagem do País; do pessimismo à redenção. E o literato não escaparia à orquestração do contexto, que passava por cima das profundas estratificações econômico-sociais para destacar uma sociabilidade ímpar e sem fronteiras de cor. Nesse campo, ele era mesmo um otimista da mistura.

Grande pregador da ideia da mestiçagem, Jorge Amado fez de sua experiência pessoal um modo de "entender o Brasil". Oriundo de famílias enriquecidas pelas fazendas de cacau, o escritor, que jamais abandonou seu universo social e cultural, foi ao encontro de outro. Influenciado pela geração da "Academia dos Rebeldes" (jovens que, do alto de seus 16 anos, experimentavam a realidade para entender a literatura), Amado acabou sendo porta-voz da reviravolta. Afinal, até os anos 30 boa parte de nossa elite intelectual andava influenciada por teorias raciais, que entendiam cruzamento como fator de degeneração da nação. Mas o momento era outro. Era hora de falar menos das desvantagens e mais das virtudes dessa brasilidade mestiça: um modelo de convivência harmoniosa. Além disso, com o término dos anos 40 e o fim da 2.ª Guerra, o Brasil seria alçado ao patamar de "exemplo de fraternidade", em meio a um mundo marcado por ódios históricos, étnicos e religiosos. Amado transformou-se, então, em artista e divulgador. Rompe com o stalinismo e entra em sua fase tropical quando escreve, em 1958, Gabriela, Cravo e Canela. Desse contexto em diante, tudo passa a resultar da mistura: a história, as culturas, as festas, a culinária, as religiões.

Jorge Amado é, assim, o grande "campeão da mestiçagem", como uma vez definiu o fotógrafo e amigo Pierre Verger. Em suas obras, ela é tão evidente que muitas vezes não precisa ser afirmada. Todos sabem que Tereza Batista e Tieta são mulatas "arretadas", e que Dona Flor é "cabo-verde" (mistura de branco, negro e índio). Tais termos não aparecem, porém, como definições rígidas. Ao contrário, no universo de Jorge inexistem classificações precisas, ou cores como gradientes fixos. Quando o tema são cabelos e pelos, o autor faz festa: aí estão a "carapinha branca" de Jubiabá e os "cabelos vermelhos" de Lindinalva; os "cabelos finos" de Lívia, em Mar Morto; os "cabelos escorridos, negros e finos" de Otália, de Os Pastores da Noite; entre muitas outras cabeleiras crespas, lisas, brancas, volumosas. É possível encontrar uma "aquarela do Brasil" nos livros do romancista: "alva", "brancarrona", "bronzeado", "cabocla", "cafuzo", "cor de bronze", "cor de formiga", "encardida", "loiraça", "mulato claro", "mulato escuro", "mulato quase branco", "mulato pardo", "negra azulada", "pele trigueira", "sarará", "pálido", "tição" e "vermelho".

Raça. Amado parece preferir entender as cores como relações. A situação social, o capital de relações sociais, a circunstância, tudo permite mudar a percepção das cores que, no Brasil, seriam efeito de contraste. Em Tenda dos Milagres, dá-se um diálogo dos mais inspirados entre Lu (a noiva branquinha e aristocrática de Tadeu Canhoto) e sua mãe. Lu lamenta a dificuldade que sente em convencer os pais a aceitar o noivo negro. Mas a mãe, esperta, à medida que o noivo se aproxima do fim do curso de engenharia, logo o promove de "negro" a "moreno queimado". Raça social é o nome que se dá a esse uso negociado da cor, nesse país em que se "branqueia" conforme se ascende na hierarquia social.

O que o Jorge etnógrafo encontrou na Bahia foi um mundo complicado, mais fácil de ser reconhecido na imaginação. Um modelo que ajuda a pensar na especificidade da nossa convivência social, mas também no tipo de preconceito por aqui praticado. Um modelo assimilacionista, talvez, mas nem por isso menos marcado pela discriminação. Convivência não quer dizer ausência de conflito; mistura não é sinônimo de falta de hierarquia, e inclusão e exclusão social são verdades igualmente válidas. E é desse universo complexo que Amado se nutre. Sua obra mostra não só a força do personalismo, como uma profunda circularidade entre cultura erudita e popular e, claro, a particularidade da questão racial no Brasil.

Não por coincidência, o jornal Libération o elegeu "embaixador simbólico do Brasil". Afinal, Jorge Amado é no exterior um dos autores brasileiros mais traduzidos, e seu Brasil mestiço tem a cara desse "país para exportação", marcado pela originalidade da mistura. Por outro lado, quem viaja ao exterior, se depara, mais recentemente, com outra imagem de Brasil, a conviver com a do paraíso tropical; aquela que sublinha o país das drogas, da violência e da discriminação. Nada mais paradoxal: duas imagens opostas de uma mesma realidade. A despeito disso tudo, o mito que Amado criou continua forte e produzindo novas versões, tal qual mito de nacionalidade. Quem embarcar nessa viagem terá dificuldade em dizer quando começa o mito e se apaga a realidade, ou quando a vida real é que vira metáfora. Na verdade, pouco importa. (Texto originalmente publicado no Caderno de Leituras do Professor, especial sobre a obra do Jorge Amado, feito pela Companhia das Letras)

LILIA MORITZ SCHWARCZ É PROFESSORA DE ANTROPOLOGIA DA USP E AUTORA DE A LONGA VIAGEM DA BIBLIOTECA DOS REIS

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