A usina explode mas há sol e a vida é tão boa...

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2011 | 03h08

Se a vida pulsa lá fora e em você mesmo, é difícil acreditar que haja um perigo mortal e que seu mundo possa acabar. O ótimo Sábado Inocente, de Alexander Mindadze, vai nessa direção. Exemplar do intenso cinema russo atual, este filme examina a tragédia de Chernobyl sob ponto de vista muito original.

É um filme físico, por definição. Isto é, a câmera, nervosíssima, acompanha os personagens na epiderme, de perto, quase sempre inquieta, na mão, mergulhando o espectador no torvelinho emocional próprio dos personagens jovens que protagonizam a história.

Eles se movimentam no dia, depois marcado como fatídico, 26 de abril de 1986, quando explode um reator da usina nuclear de Chernobyl, numa das maiores catástrofes atômicas da história. O caso foi mantido em segredo durante algum tempo, sob a desculpa piedosa de não causar pânico na população. A demora na divulgação provocou mais danos do se tivesse sido tratado com transparência. Mas essa não era exatamente a melhor característica da URSS em seus anos finais.

A história passa pelo personagem Valerij, jovem que trabalha na usina e sabe do vazamento de material nuclear e suas consequências para a saúde. Tenta sair da cidade e levar consigo sua namorada. Mas, esse é o tema interessante do filme, não é fácil deixar uma cidade quando o sol brilha, há uma namorada bonita e vaidosa, amigos que tocam num conjunto de rock e vodca para consumir.

Valerij e seus amigos, no fundo, nada querem saber da ameaça que paira sobre eles. Sabem e não sabem. E, mesmo sabendo, a deixam em segundo plano porque afinal a vida é bela, há sol, faz calor e a busca pelo prazer pode ser mais urgente do que o instinto de sobrevivência. O filme pulsa, nos angustia e nos coloca na pele dos personagens. Com suas razões e sua loucura.

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