Christian Hartmann/Reuters
Christian Hartmann/Reuters

A única saída é a arte

Chega o poderoso Minha Felicidade, do russo Loznitsa, que bem pode vir a ser o melhor filme da 34.ª Mostra

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2010 | 00h00

A Mostra tem exibido filmes grandes que também são grandes filmes - Carlos, de Olivier Assayas; Mistérios de Lisboa, de Raoul Ruiz. Juntos, somam mais de dez horas de duração. Comparado a esses dois, Minha Felicidade, de Sergei Loznitsa, com "apenas" 127 minutos, é só um filme "normal" - um média-metragem? Ledo engano. A 34.ª Mostra fecha hoje em alto estilo a sua primeira semana. Está chegando o campeão.  

 

 

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Pode ser temeroso querer escolher, entre quase 500 títulos, entre curtas e longas, filmes novos e antigos (muitos raros), o melhor. É o de Loznitsa. Não que seja agradável de ver - a visão que o autor projeta da Rússia pós-comunista é assustadora. No caos social que se seguiu à derrocada do regime, a antiga federação virou um salve-se quem puder (a vida). Como em Tropa de Elite 2, o filme fenômeno de José Padilha que continua lotando as salas de todo o País e acaba de ultrapassar a marca de 6 milhões de espectadores, o tema da (in)segurança é essencial, só os candidatos que disputam o 2.º turno da eleição presidencial não sabem disso: a polícia que deveria velar pelo cidadão é integrada por criminosos. O mundo de Loznitsa é um lugar muito perigoso para se (sobre)viver.

E há o estilo. Nascido na Bielorrússia em 1964 e hoje radicado na Alemanha, Loznitsa estreia no longa de ficção depois de adquirir (cartaz) reputação no documentário. Minha Felicidade situa-se nas bordas das duas tendências. Existem momentos em que as imagens parecem estar sendo roubadas à realidade, mas o filme todo é produto de uma extrema elaboração - formal e intelectual. Só quem não percebeu isso foi o júri presidido por Tim Burton, em Cannes, em maio.

No geral, o júri (integrado também pelo grande diretor espanhol Victor Erice) acertou. Fez escolhas ousadas, privilegiando justamente o cinema autoral num momento em que Burton ocupava as salas de todo o mundo com Alice, livremente adaptada de Carroll (e muito mais resultado de sua prodigiosa imaginação). Faltou premiar Loznitsa. Um caminhoneiro pega uma saída errada na estrada. Parece o início de um filme de horror de Hollywood. É um filme de horror. Ele adentra cada vez mais num mundo desumano. Não há saída, exceto a grande arte de Loznitsa.

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