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A um sobrevivente

Salve, Khaled Harobi. Espero que corra tudo bem na Itália, França, Espanha, Tunísia, onde quer que esteja. Tenho pensado em você nos últimos dias. Várias vezes me peguei lembrando daquela sua entrevista desastrada em 2011, quando desembarcou em Lampedusa e foi levado ao centro de imigrantes.

LAURA GREENHALGH, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2013 | 11h39

 

Já estava naquele confinamento (cometo alguma injustiça se não chamo aquilo de abrigo?) havia uma semana, quando alguém ligou uma filmadora na sua cara e uma voz em off perguntou o que você achava da sua primeira experiência na Itália. Não era pergunta que se fizesse. Você olhou para os lados e respondeu num francês com acento árabe: "Recepção, zero". A entrevistadora continuou provocando, notava-se em sua voz uma ponta de ironia. Afinal, como um africano ilegal, que chegou num barco velho à ilha que é uma joia do Mediterrâneo, poderia desejar melhor acolhida? E você continuou repetindo a nota da reprovação:" zerrô, zerrô!". Reclamou da higiene do lugar, da falta de comida, só tomara um pouco de leite em dias. Lembrou que em Ben Guerdane, na sua Tunísia natal, também aportavam imigrantes líbios naqueles dias, porém havia mais solidariedade no povo.

 

Chegavam até travesseiros para os de fora. A voz europeia continuou apertando você, seu intruso insolente, afinal, nem parecia saber que já eram mais de 4.500 africanos ilegais, numa Lampedusa com 5 mil habitantes.

 

Daí você se superou, Khaled. "E 4.500 é muito? Numa Itália de 60 milhões? Numa França de 70 milhões?", atreveu-se a perguntar. Quando postaram o vídeo na internet, a turba caiu matando. Você não tem ideia das reações... Um raro bem humorado disse que você se comportava como um turista dando nota de hotel no TripAdvisor. Acertou sem querer.

 

Quantos terão percebido seu semblante e fechado, Khaled, ao contar que trabalhava com viagens na Tunísia, um setor que simplesmente desaparecera depois da primavera levantina?

 

Pois é, meu caro, a coisa só piorou em Lampedusa. Nos últimos dias, um hangar do aeroporto virou necrotério. O outro, velório. Você poderia ter dito "zerrô" para um bando de figurões esta semana.

Eles chegaram com frases de efeito na cabeça, mas bambearam nas pernas diante de 320 caixões enfileirados. Estava lá o português Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, uma

comissária nórdica, a Sra. Malmström, o primeiro-ministro italiano, Enrico Letta, mais o vice-presidente Angelino Alfano. Disseram que o Mediterrâneo não pode virar cemitério a céu aberto.

 

Que incêndio seguido de naufrágio, a meia milha da costa, ceifando centenas de vidas, não é situação digna da Europa. E que vão liberar um fundo de 30 milhões de euros para a ilha custear a

ajuda humanitária aos imigrantes. Ajuda humanitária? Mas não eram ilegais, delinquentes, criminosos? Daí, Khaled, veio o fecho de ouro: anunciaram que irão propor a candidatura de Lampedusa para o Nobel da Paz.

 

Posso imaginar o seu pasmo. A tragédia que ata 500 imigrantes do norte da África, a maioria deles da Eritreia e da Somália, a um barco ordinário que partiu do litoral líbio para ancorar em Lampedusa, precisa de tudo, menos de prêmio. São tantos equívocos... Quer um? Quando você conta como decidiu entrar na Europa via Lampedusa, parece tratar a bela ilha italiana como quintal da sua casa. E se dana todo. Porque o europeu prefere acreditar que você vem do outro lado do mundo, Khaled. Ou até de outro mundo. Ele não registra que Lampedusa está a 205 km de sua sede administrativa, a Sicília, e a 103km da costa africana.

 

Você fica dando "zerrô" para o centro de imigração, onde as pessoas fazem necessidades nas embalagens pet que utilizam, e se esquece de contar quanto pagam aos donos dos barcos por uma travessia louca, que já consumiu 8 mil vidas nos últimos 20 anos.

 

Vai, conta isso, Khaled. Conta que esses salafrários chegam a cobrar 3 mil euros por cabeça embarcada. Sem serviço de bordo. Muito menos de pós-bordo. Podem explicar como ainda não acabaram com esses traficantes de gente? O dono do barco que afundou dias atrás havia limitado o fornecimento de água, ao longo da viagem, a uma garrafa para três sedentos!

 

Voltando aos figurões, Khaled. Depois de cobrirem os caixões com a espuma de suas promessas vagas, eles iam batendo em retirada quando a prefeita de Lampedusa, GiusiNicolini, disse um sonoro "alto lá"- e intimou-os a conhecer o centro de imigração.

 

Troca de olhares embaraçados. Como você bem sabe, o centro fica na ponta oposta aos melhores recantos turísticos da ilha - como Cala Pulcino, onde os iates flutuam em águas cristalinas, a rigor, as mesmas onde boiaram cadáveres recentemente. Durão Barroso e Letta, ao término da visita, soltaram um lacônico "é insustentável". Ouviu-se que a situação é "vergonhosa" - agora repetem a expressão do Papa ao visitar a ilha em julho, quando vestiu-nos a carapuça da globalização da indiferença.

 

O problema é o desfecho de tudo isso, Khaled. Talvez um rotundo "nada", ante a incapacidade de uma formulação política que vá além da retórica de ocasião. Os mais de 300 mortos de Lampedusa, inclusive os não identificados, ganharão nacionalidade italiana e terão funeral de Estado, anunciou Alfano, apoiador de Berlusconi até anteontem. O mesmo Berlusconi que, para agradar os xenófobos da Liga do Norte, fez passar uma lei em 2002 estabelecendo "delito de cumplicidade" para quem de alguma forma se meter com os imigrantes indesejados.

 

A sua ilegalidade incomoda, compadre, e todo auxílio a você e sua gente poderá ser criminalizado. Agora dá para entender porque a guarda costeira demorou duas horas para socorrer um incêndio que ardia a meia milha do porto?

 

Eu sei, Khaled, você adoraria ter documento europeu... Morrendo, talvez. Vivendo, difícil. Os defuntos, pobres diabos, serão enterrados com honras na Sicília. Mas os sobreviventes, diabos pobres, pagarão multa de até 5 mil euros, serão expulsos e mandados de volta ao que haviam deixado para trás. Sentirão no traseiro o solado da bota.

 

Fico por aqui. Me despeço achando que você se safou. Cuide-se bem, rapaz. Um abraço.

 

***

 

PS: acabo de saber que mais um barco virou na travessia. Trazia 250. Mortos já são 50. E nem acabaram de contar os corpos do desastre anterior, Khaled...

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