A última trilha de papel

John Updike deixou arquivo que pode ajudar a entender o seu rico universo de escritor

Sam Tanenhaus, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2010 | 00h00

Quando John Updike morreu de câncer no pulmão em janeiro de 2009, aos 76 anos, parecia ter sobrado pouco para se saber dele. O autor esteve entre os mais prolíficos e autobiográficos escritores de seu tempo, revisitando sua vida em ficção, poesia, ensaios e crítica que aparecia com regularidade na The New Yorker e em livros publicados pelo menos um por ano durante mais de meio século.

Mas ele era reservado e cultivou desde cedo sua solidão. Aos 25 anos, ainda sem nenhum livro publicado, ele fugiu de Nova York (e de um emprego de redator na The New Yorker) e mudou-se para uma praia de Massachusetts, onde ficou pelas cinco décadas seguintes, e ia, eventualmente, a uma propriedade de 11 acres que dividia com sua segunda mulher, Martha, em Beverly Farms. Ali ele assumia o aspecto de um proprietário rural literário, escondido num ninho com vista para o Atlântico.

Mas, enquanto se esquivava do público, deixava uma trilha de pistas para seus trabalhos e seus dias: um enorme arquivo organizado. "Ele o via não só como uma coleção de seus materiais de trabalho, mas como um registro de seu tempo", disse Martha Updike em entrevista telefônica. Hoje, o material está no porão da Biblioteca Houghton, depósito de livros e manuscritos raros da Universidade Harvard

"O arquivo pode ser a última grande trilha de papel", disse por e-mail Adam Begley, crítico e jornalista que trabalha numa biografia de Updike. "Quem quer saber como um grande escritor trabalha encontrará aqui a mais completa explicação." Mas Begley e outros terão de esperar dois anos, tempo que os arquivistas estimam para catalogar o conteúdo de quase 170 caixas.

Eu tive permissão para examinar por três dias um conjunto de pertences e posso confirmar que eles detêm as chaves do universo literário de Updike.

Embora ele fosse conhecido e invejado por escrever rápida e facilmente, e revisar pouco, o arquivo revela os cuidados que ele tomava para estabelecer o tom e a atmosfera de seus romances.

Fichas do início dos anos 1990 têm um resumo de Coelho Se Cala, o romance vencedor do Prêmio Pulitzer e a mais famosa criação de Updike. Uma caixa contém um esboço completado em janeiro de 1989. Escritas às pressas, as sentenças estão cheias de riscos, inserções e textos circulados, provando quanto ele burilava o idioma do americano médio e o impetuoso tempo presente que são a assinatura do ciclo Rabbit.

Ali estão materiais que mostram a sua sólida pesquisa de ambientes. Há instantâneos de lojas em Reading, Pensilvânia, a maquete para a casa urbana de Rabbit em Brewer e páginas fotocopiadas de livros médicos.

Cartas a Plowville. Os documentos mais reveladores do arquivo, porém, podem ser os que Updike guardou com maior zelo: sua volumosa correspondência, incluindo centenas de cartas a seus pais. Ele encadernou muitas das cartas em livros que traziam na capa "Cartas a Plowville", o nome da fazenda da família na Pensilvânia.

Cobrindo um período de 1950, o início da sua vida universitária, a 1967, quando ele já era um romancista best-seller e premiado, sua correspondência oferece uma visão do progresso de Updike de menino de fazenda a urbano sofisticado, e de aprendiz a artista sério. Ao chegar a Harvard, ele era um rapaz com bolsa de estudos, vindo do ensino público, afetado por uma gagueira e um caso severo de psoríase.

Como planejava ser escritor, graduou-se em inglês para se obrigar a ler a literatura clássica. Ele terminou em nono em sua classe, mas ficou magoado quando seus examinadores hesitaram em lhe dar a distinção de louvor máximo.

Rejeições. Desde o começo, ele, que escrevia seu primeiro livro, esperava estudar com o romancista Albert Guerard e o poeta Archibald MacLeish, mas eles não se impressionaram com os seus textos. Essa e outras rejeições ajudaram Updike em sua crença de que os autores americanos estavam enfeitiçados pelos modernistas europeus e não davam atenção ao próprio tempo e lugar.

O sucesso veio em 1955, quando foi contratado pela New Yorker, mas trouxe concessões. Em 1959, ele teve de cortar cenas de sexo explícito de Coelho Corre, seu primeiro grande romance. A história de adultério era ousada numa época em que tribunais americanos não sabiam se o romance O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, devia ser considerado obsceno.

O tempo passou, os padrões de obscenidade relaxaram e ele pode restaurar a linguagem original. A aventura sexual se tornaria, enfim, a matéria-prima constante da ficção do escritor, bem como a sua missão de registrar o encontro da ética protestante com as sublevações da revolução sexual.

Várias décadas depois, aos 75 anos, quando avaliava a sua trajetória, John Updike resumiu assim a sua jornada: "Resolvi ganhar a vida com minha caneta, em privacidade, e estou grato por ter conseguido." / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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