A Última Estrada da praia, belo e fora de competição

Existem grandes autores na literatura do Rio Grande do Sul. Existe um mítico, que escreveu Os Ratos e O Louco do Cati, Dyonélio Machado. Militante comunista, ele construiu, no segundo livro, uma poderosa metáfora sobre as perseguições políticas do getulismo. O louco passa sem fala pela história, repetindo o bordão "É cati! É cati!". Refere-se ao cativeiro.

Luiz Carlos Merten / GRAMADO, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2010 | 00h00

Fabiano de Souza fez um dos mais belos filmes deste Festival de Gramado. A Última Estrada da Praia integra a mostra paralela Panorama. Teria sido um concorrente muito mais forte e defensável do que o outro filme gaúcho, Enquanto a Noite Não Chega. O filme é a versão longa (90 minutos) de um projeto sobre escritores gaúchos que a RBS encomendou a cineastas do Rio Grande.

Fabiano, crítico e professor de cinema, filho do crítico Enéas de Souza, inspirou-se em Dyonélio Machado e no Louco do Cati. Seu filme conta a história de um trio que recolhe esse louquinho na estrada e parte numa viagem para a praia. O trio participa de jogos de sexo. O louco permanece à margem. Uma briga, como na história original, separa o trio e o louco liga-se ao personagem que restou. Encontram uma porta jogada na praia. A porta vira entrada para um mundo metafórico e imaginário.

Fabiano de Souza trabalha mais com o existencial e o metalinguístico do que propriamente com as reflexões políticas que alimentavam Dyonélio. Mas ele não esvazia a mutilplicidade de significados do livro. A Última Estrada da Praia tem algo de absurdo (Becket? Ionesco?) O ator que faz o louco é maravilhoso. Ele trabalha com o mínimo, potencializando a angústia que consome o personagem. Prescinde de palavras para expressar sua dor. Quando chora, o sofrimento é genuíno.

O mais bacana do filme é que dialoga com Estrada para Ythaca, que venceu o Festival de Tiradentes, em janeiro. O filme cearense dos irmãos Luiz e Ricardo Pretti, mais Guto Parente e Pedro Diógenes mostra esses quatro amigos na estrada, numa viagem para purgar a morte de um companheiro. Ythaca vira discussão sobre o próprio cinema. O quarteto é outro em A Última Estrada da Praia, mas também há, embutida, uma riquíssima discussão sobre o cinema. Seria muito interessante reunir as duas equipes, ou os cinco autores, para debater as entrelinhas desses dois filmes tão belos. O cinema brasileiro, não apenas o cinéfilo, só teria a ganhar.

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