A última entrevista do fotógrafo cubano Raúl Corrales

Raúl Corrales, o último personagem que compunha a trilogia dos grandes fotógrafos da Revolução cubana, ao lado de Korda e Osvaldo Salas, morreu em 15 de abril, duas semanas após conceder sua última entrevista, exclusiva ao Estado de S.Paulo. Sua casa no bairro de Cojimar é simples para um autor famoso, cujas fotos percorrem o mundo. Afinal, é autor da imagem em que Che Guevara, em 1959, aparece pela primeira vez numa TV, a cubana, além da foto antológica do discurso de Fidel com seus companheiros de luta, logo depois de descer a Sierra Maestra e ser aclamado por milhares de cubanos espremidos nas ruas de Havana. Nesta sua última entrevista, concedida durante a 9ª Bienal de Havana, Corrales revela um segredo que nem mesmo alguns curadores cubanos sabiam. A revolucionária Célia Sánchez, reconhecida por sua competência e bravura, companheira de Fidel nos grandes combates, era também artista plástica. Amadora e clandestina, mas era. Nos anos 60, artistas importantes e simpatizantes da causa cubana estiveram por aqui. Um deles foi Asger Jorn, componente do grupo CoBrA, formado por artistas de Copenhagem, Bruxelas e Amsterdã, o mais politizado do pós-guerra. Jorn pertencia ao Partido Comunista Dinamarquês, como outros artistas de sua geração, entre eles Picasso. Em suas estadas em Havana, ele pediu a Célia Sánchez permissão para pintar as paredes da Oficina de Assuntos Históricos del Consejo del Estado, fundado por ela, um local fechado à visitação pública. Depois de algumas tentativas consegui entrar na Oficina, acompanhada do cônsul da Noruega em São Paulo, Jens Olesen e, imediatamente, me chamou a atenção uma coluna que dividia seu melhor trabalho e que tinha a interferência de outro pintor. Diferentes de sua pintura de gestos largos, coloridos e nervosos, apareciam desenhos de árvores, canhão, como traços de criança ou de artista primitivo. Aquela intervenção me intrigou e quando cheguei à casa de Corrales quis saber se ele conhecia o autor da façanha. "Bem, essa é uma história longa, mas vou tentar resumi-la. Me tornei amigo de Jorn, em 1968 quando eu trabalhava na Oficina e passei a acompanhar seu trabalho diariamente. Ele falava francês, inglês, dinamarquês, e algumas palavras em espanhol, tudo misturado. Wifredo Lam (o Portinari de Cuba) e outros artistas costumavam visitá-lo. Vivia modestamente perto dali e era muito generoso. Se algum de seus auxiliares gostasse de sua camisa, ele imediatamente a tirava e presenteava." Jorn pintava e Corrales fotografava na seqüência. "Às vezes, quando eu chegava pela manhã, a pintura registrada no dia anterior já não existia. Coisas de artistas, eles fazem e refazem sempre." Durante meses Jorn pintou várias paredes, sempre deixando uma coluna branca, que obstruía seu melhor mural. Quando alguém lhe perguntava, ele dizia que não saber o que iria fazer com ela. "Parece que isso o incomodava, e me colocava ainda mais intrigado. Numa madrugada, sem que ninguém soubesse, Célia Sánchez entrou escondida e pintou a coluna branca deixada por Jorn." Corrales lembrou que no dia seguinte a Oficina estava em candela, como dizem os cubanos. Todos muito agitados. Alguns culpavam o filho de Violeta Casal , atriz dramática e locutora da Rádio Rebelde na Sierra Maestra, e que às vezes aparecia por lá. "A chegada de Jorn, era esperada com apreensão. Para nossa surpresa, ele olhou para a coluna, não disse nada e, como fazia todas as manhãs, encheu seu copo de rum, acendeu um cigarro e prosseguiu pintando. Emudecemos. Nunca se falou disso publicamente." E Fidel chegou a ver isso? "Ele visitou a Oficina muitas vezes, mas nunca comentou nada." Hoje, representantes do governo da Dinamarca, que por coincidência estavam em Havana e acompanharam os funerais de Corrales, estão em entendimento com Cuba para transformar o local em Museu Asger Jorn, injetando milhares de euros para eternizar um CoBRA na Ilha de Fidel. Leonor Amarante é curadora-geral da 1.ª Bienal do Fim do Mundo, Ushuaia, Argentina 2006; e é editora-executiva do Memorial da América Latina

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