A ÚLTIMA COREOGRAFIA, PLENA DE ENERGIA

Trisha Brown disse adeus, mas sua companhia de dança continuará em atividade, pois inicia em breve turnê internacional de despedida que durará três anos. Apesar de seus problemas de saúde terem se agravado nos últimos anos, ela continuou coreografando até o outono de 2011 e, nos meses seguintes, manteve contato regular com os bailarinos sob seu comando.

SÉRGIO MEDEIROS , ESPECIAL PARA O ESTADO, SÉRGIO MEDEIROS É TRADUTOR, POETA, AUTOR DE TOTENS , (ILUMINURAS, 2012), O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2013 | 02h08

Agora, com séria dificuldade de comunicação, tudo acabou: Trisha Brown não é mais a diretora artística da cia que leva seu nome. A decisão foi anunciada em dezembro, de modo que o público que compareceu à Academia de Música do Brooklyn, no gelado inverno nova-iorquino, entre 30 de janeiro e 2 de fevereiro, assistiu às duas últimas coreografias assinadas pela artista antes da aposentadoria: Les Yeux et l'Âme (Os olhos e a alma), de março de 2011, e I'm going to toss my arms - If you catch them they're yours (Lançarei meus braços - Se você os pegar são seus), de outubro de 2011.

O programa incluiu também duas importantes obras antigas, Homemade (Feito em casa), de1966, e Newark (Niweweorce), de 1987. Das duas excelentes coreografias mais recentes, a última foi a que mais me impressionou. Nessa obra longa, os bailarinos (quatro homens e quatro mulheres) dançam usando roupas largas como pijamas diante de grandes ventiladores postados num dos lados do palco. Os aparelhos discretamente ruidosos inflam as roupas, que vão se soltando aos poucos dos corpos em movimento e depois deslizam livremente pelo palco vazio, impulsionadas pela brisa. As peças de roupa branca se movem devagar ou com pressa, ou primeiro com pressa e depois devagar, mas não desaparecem do palco nem caem dele, embora isso, obviamente, também possa acontecer. As peças vão parando trêmulas aqui e ali e algumas ainda deslizam um pouco mais.

Essa delicada e inesperada "dança" de roupas sem bailarinos que um vento contínuo finalmente arrastou para o centro do palco, enquanto ao fundo um músico tocava piano, foi um dos momentos mais tocantes da última coreografia de Trisha Brown.

Livres dos pijamas, os bailarinos tomaram o palco e dançaram com coloridas roupas de banho, como se estivessem numa praia tropical. Decididamente, essa obra de despedida não é melancólica, mas energética, na qual tudo se move e tudo vibra o tempo todo. Trisha despiu os bailarinos de suas roupas e deu a estas "vida própria" no palco, mas elas não se tornaram assombrações nem substituíram a artista ausente. Tampouco se pode afirmar que os pijamas são casulos de que os bailarinos se livraram para melhor exercer sua arte ou atingir a plena liberdade de movimento, numa passagem do sono à vigília. Isso seria elementar demais para os altos padrões criativos da exigente Trisha.

Tudo ganha autonomia na última coreografia da artista norte-americana, daí o porquê de os bailarinos se moverem independentemente da música, e as roupas, independentemente dos bailarinos. Ninguém estorva ninguém, nessa cena vívida e complexa. Essa é, parece-me, a essência da amorosa dialética entre vestir e despir, entre sonhar e despertar, na performance fascinante dessa coreógrafa.

No dia 31 de janeiro, a companhia também dançou a mítica Set and Reset (Monta e Remonta), de1983, que o NY Times descreveu como "a mais amada obra da dança pós-moderna". As roupas dos performers dançando ao som da música de Laurie Anderson adquiriram grande importância cênica, como registrou o mesmo jornal. Traziam a assinatura de Robert Rauschenberg, que criou toda a elogiada apresentação visual do espetáculo.

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