Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

A TV Pop de Andy Warhol

Pouca gente viu quando o artista deu as caras em programas nos EUA. Agora Warhol TV, no Rio, traz este raro material

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2011 | 00h00

Desde 1967, o mundo repete as palavras proféticas de Andy Warhol (1928-1987) sobre os 15 minutos de fama a que todos teriam direito no futuro. O futuro chegou, provando que ele estava certo. Sua pop art, embora ainda desqualificada aqui e ali, está cada vez mais valorizada no mercado - há dois meses, o leilão de duas obras, um retrato de Elizabeth Taylor e uma tela da série de garrafas de Coca-Cola, rendeu US$ 94,5 milhões. Mas seu trabalho para a TV, que lhe era bastante caro, é praticamente desconhecido.

Mesmo nos Estados Unidos o conteúdo da mostra Warhol TV, em cartaz a partir de hoje no Oi Futuro do Flamengo, no Rio, é novidade. Com curadoria da jornalista francesa Judith Benhamou-Huet, e endosso de Vincent Fremont, amigo e assistente de Warhol em suas últimas duas décadas de vida, a exposição, que passou nos últimos dois anos por Paris e Lisboa, traz trechos de vários programas que o "papa da pop art" fez; parte só foi visto na ilha de Manhattan, por conta do alcance restrito das TVs a cabo que os transmitiam. Com a imagem projetada pela nascente MTV, e, antes, por participações em programas de grande popularidade, como a série Love Boat e o humorístico Saturday Night Live, ele iria deixar sua marca na TV, com direito a aparições em propagandas da Coca-Cola e de outras grandes companhias.

Tudo começou quando Judith viu uma pequena amostra na New Gallery, em Londres. Intrigada, ela, que desconhecia esse Warhol, foi à fonte: o Museu Andy Warhol, em Pittsburgh, na Pensilvânia, onde o menino, filho de imigrantes que chegaram pobres da Eslováquia, nasceu e se formou designer, antes de partir para Nova York. Lá, trabalharia primeiro como ilustrador de revistas e de anúncios.

A jornalista pesquisou o acervo por quase um ano. Acredita que esta parte da obra de Warhol era a única ainda inexplorada. Curiosamente, é a única não rentável (ele investia o dinheiro que ganhava como artista plástico em sua produtora de TV, sem ver retorno). "É TV feita por artista, com sua estética, mas comercial. Ele não era crítico da TV, como outros artistas; pelo contrário, a amava. O jeito com que entrevistava as pessoas era único. Estranho, absurdo, por isso, interessante. Às atrizes, perguntava: Por que você pinta o seu cabelo? Para (o pintor) Jean-Michel Basquiat: Por que suas meias têm cores diferentes?", Judith destaca.

Ontem à noite, ela e Vincent Fremont fizeram uma visita guiada à exposição, com convidados. Ele trabalhou com Warhol em todos os seus projetos televisivos, de 71 a 87 - o artista o fez seu vice na produtora. "Se Andy acreditava, investia. Queria ter o controle de tudo, fazer TV de verdade, e não arte na TV", conta Fremont, que ainda se emociona ao mencionar a morte repentina do amigo, depois de uma cirurgia na vesícula.

Fashion era um talk-show que tratava do mundo da moda. Em Andy Warhol"s TV, o homem que não aceitava ser entrevistado - sobretudo ao vivo, pois detestava a ideia de ser pego no contrapé - trocou de lado e recebeu gente das artes, da música, da moda, do cinema.

Andy Warhol"s Fifteen Minutes também tinha celebridades, as mesmas com as quais se relacionava nas movimentadas noites nova-iorquinas. Alguns temas são recorrentes: beleza, vaidade, fama, glamour, sexo.

Nascido na era do rádio, Warhol tinha obsessão pela TV. Amava novelões. Assistia deitado na cama - no Oi Futuro, o visitante experimenta a sensação deitado numa cama que tem ao pé duas TVs, que passam programas com ele.

Num telão na sala em frente, estão imagens da missa em sua memória realizada na Saint Patrick"s Cathedral, e transmitida no último programa de Andy Warhol"s Fifteen Minutes. No púlpito, Yoko Ono e outros célebres falaram sobre o artista.

QUEM É

ANDY WARHOL

ARTISTA PLÁSTICO, CINEASTA, CRIADOR DE TV

Maior nome do movimento da pop art nos EUA, Warhol começou a usar conceitos de publicidade nos anos 60. Criou telas sobre mitos como Marilyn Monroe e Elvis Presley, e artigos de consumo de massa, cujas imagens reproduzia serialmente, com variações de cores. As mais conhecidas são as das sopas Campbell"s.

WARHOL TV

Oi Futuro Flamengo, Rua Dois de Dezembro, 63, tel. (21) 3131-3060. 11 h/ 20 h (fecha 2ª). Grátis. Até 3/4.

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