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Lúcia Guimarães
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A TV morreu, viva a TV

O futuro é digital. A televisão é uma peça antiquada de decoração. O Vale do Silício sabe de tudo. Hollywood e Nova York são jurássicos. O negócio é capturar os olhos dos millennials digitais. Blá, blá. Os cães da inevitabilidade tecnológica ladram e a caravana da televisão passa. É mais ou menos a tese do novo livro do crítico de mídia Michael Wolff, um jornalista nova-iorquino conhecido por fazer declarações como as enumeradas acima passar por seu triturador sarcástico.

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

06 Julho 2015 | 03h00

Em seu novo livro, A Televisão É a Nova Televisão, Wolff contempla a paisagem da mídia americana, examina os números das corporações e conclui que pelo menos um grupo de supostos dinossauros escapou da prevista extinção. Ao contrário da música e do jornalismo impresso nos Estados Unidos, a televisão vai bem, obrigada, mesmo que suas imagens não saiam de uma caixa na sala.

E, ao contrário do cinema popular, que emerge da transformação digital rebaixado em prestígio e qualidade, a televisão do século 21, acredita Wolff, está mais próxima de Hollywood das décadas de 30 e 40 em seu domínio da imaginação coletiva e na disposição do público de acompanhá-la.

O autor não atribui qualidades de gênios visionários aos executivos da TV. Conclui que, em parte por ser um time da velha guarda e por terem se debruçado sobre o poço sem fundo da entrega de conteúdo grátis, seguiram em frente.

Além disso, como vídeo requer muito mais espaço de banda online, as redes e os estúdios produtores de televisão tiveram tempo para reagir ao choque, como não fizeram a indústria do disco e os jornais impressos. Pressionada, a televisão passou a mostrar o que fazia melhor e custa caro. Falamos de Os Sopranos, Mad Men, Breaking Bad.

Programação butique? Sim, mas de alto nível, de peso cultural e que se paga bem. Ou NCIS, uma franquia produzida para a TV aberta avaliada em US$1 bilhão. Mas, dirão os céticos, o serviço Netflix acumula mais assinantes do que a audiência de qualquer das três redes originais de TV aberta e representa mais de um terço dos downloads de vídeos.

Wolff não nega. E completa: o que a Netflix produz é TV convencional, ela paga US$ 2 bilhões por ano em licenciamento de programação mas continua diferente de uma HBO num detalhe. A HBO lucra US$ 1,7 bilhão por ano, a Netflix pouco mais de US$ 200 milhões.

O que permite a esta colunista ficar em casa numa nevasca, abrir mão de um raro lançamento independente nos cinemas de Nova York e ser amplamente recompensada pela série The Americans, o melhor drama em produção nos Estados Unidos? A queda da dependência de anunciantes. A televisão americana está exibindo qualidade com o meu bolso. A participação da publicidade caiu para cerca de metade da receita operacional da TV.

A indústria de mídia digital nativa avança como os personagens de Jogos Vorazes na disputa por anúncios cada vez mais baratos, não importa se, como o Buzzfeed, oferece até 150 milhões de visitantes únicos por mês. Não são globos oculares, são cartões de crédito, escreve Wolff.

A volta por cima da TV confirma uma noção dos tempos analógicos – uma tecnologia depende, mais do que da sua eficiência nativa, de escolhas feitas no começo de sua introdução. Alô, VHS X a superior e finada Betamax?Entre as escolhas fatídicas, Wolff cita, por exemplo, a ação legal da gigante Viacom contra o YouTube por violação de copyright.

O Google, dono do YouTube, bateu em retaguarda, combateu a pirataria e passou a seguir um modelo de licença de conteúdo, a exemplo da “velha” TV. O Netflix não teria investido tanto em House of Cards se não tivesse perdido um acordo inicial com a rede de cabo Starz.

O mesmo mal-estar que afligia a TV dos anos 60 – uma vastidão de mediocridade e conformismo, hoje aflige a Internet. A tecnologia pode ser digital. Mas qualidade, não importa o formato da entrega, continua artesanal.

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