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Ney Matogrosso estreia Atento aos Sinais, com peso de rock e discurso coerente com seu espírito libertário

LAURO LISBOA GARCIA, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2013 | 02h13

O show Atento aos Sinais, de Ney Matogrosso, já vem fazendo barulho antes de estrear oficialmente amanhã em São Paulo. E promete fazer muito mais. A preliminar foi em Juiz de Fora, interior de Minas, no dia 28 de fevereiro. É a quarta vez que o cantor estreia um show no Cine-Theatro Central da cidade, o único que lhe dá margem de quatro dias para ensaiar e preparar o palco.

Depois de quatro anos, "com casa lotada até o fim", fazendo Beijo Bandido, "um trabalho todo introvertido", Ney volta com outro mais puxado para o rock, pesado, quente, cenários, figurinos e iluminação vistosos. Agora diz que está também usando painel de LED pela primeira vez, mas de maneira criativa.

A alternância de atmosfera entre um e outro é constante na carreira do cantor. E neste 2013, em que completa 40 anos de carreira (contados a partir da explosão dos Secos & Molhados), não quer que seja nada "comemorativo": "É apenas mais um passo adiante do que venho fazendo", diz o cantor, de 71 anos, com uma inquietação que faz o tempo jogar a seu favor. O que o move hoje "é o mesmo princípio", que vem de lá num moto contínuo.

Não por acaso, no roteiro de 19 canções, ele incluiu duas de Vitor Ramil (A Ilusão da Casa e Astronauta Lírico), numa das quais canta: "O tempo é meu lugar/ O tempo é minha casa/ A casa é onde quero estar". Só que nos tempos de hoje há menos sinais de amor e mais de perigo. Ao rememorar os loucos anos 70, sem saudade, Ney lembrou que "vivíamos sob uma ditadura filha da p..., mas éramos livres", à base de sexo, drogas e rock'n'roll.

Quando ele surgiu como uma figura andrógina, libertária, cantando poesia contundente no auge do desbunde e nos anos de chumbo da ditadura militar, foi um dos poucos que deu a cara pra bater, como disse certa vez. O mundo nos anos 2000 se encaretou, é mais segmentado e virtualmente agressivo e desmiolado. A resposta de Ney a isso tudo vem com força já na primeira canção do show, Rua da Passagem (Arnaldo Antunes/Lenine) em que ele frisa no refrão: "Todo mundo tem direito à vida / Todo mundo tem direito igual".

"Sempre acreditei nisso", diz Ney. A política e a religião no Brasil vêm aviltando esses direitos básicos dos cidadãos, considerados "minorias", principalmente homossexuais. "Estou me colocando contra isso. Não sou ingênuo. Escolho para cantar assuntos que acho pertinentes. Então, estou me posicionando claramente diante dessa coisa essa coisa religiosa no Brasil. E contra qualquer veto à liberdade", diz. "Liberdade não se negocia e cada um sabe de si. Não é religião que vai organizar o movimento, porque não organiza. E se a gente começar a fuçar vai ver que é tudo meio hipócrita, né? É uma falsa moral que querem impor."

Ney também coloca em cena negros dançando e índios nus tomando banho e amamentando crianças num vídeo que o público aplaudiu em Minas. "Ousei e fui muito bem compreendido. Entenderam tudo o que eu queria passar e foram receptivos às minhas ideias. Juiz de Fora é uma cidade pequena, mas representativa. O público seria teoricamente conservador, mas não foi conservador em nenhum momento na reação", diz. "Para mim foi estimulador saber que posso colocar meus pensamentos da maneira que eu achar necessário e eles terem uma abertura total para a percepção disso. Em nenhum momento alguém ficou chocado, ofendido ou reticente."

Essa é a primeira vez que ele produz um show com patrocínio e sente um certo conforto em relação a isso. "Ia fazer o show de qualquer forma, mas o patrocínio facilita. Não preciso tirar o dinheiro todo do meu bolso. Vamos fazer seis shows com a Natura e seguir carreira por conta própria." Como reforço na promoção, a empresa produziu um vídeo curto - para ser exibido em 111 salas de cinema - em que Ney aparece ensaiando com os músicos, dizendo algumas frases e cantando trechos de Rua da Passagem.

Jovens e inéditos. Além de Lenine, Arnaldo e Ramil, Ney interpreta três canções de Itamar Assumpção (um de seus autores prediletos), compositores novos como Dani Black, Dan Nakagawa, Rafael Rocha (do grupo Tono), Vitor Pirralho, Beto Boing, Criolo, e outras de Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Pedro Luis, Alzira e Jerry Espíndola, Lobão e Bernardo Vilhena. Para ele, a maioria tem sabor de inéditas, já que boa parte desses autores são conhecidos mais em suas regiões.

A direção musical é do tecladista Sacha Amback, que lidera uma banda de sete músicos, mas sem bateria. Depois que o show estiver na estrada, Ney vai gravar um CD em estúdio com esse repertório. Pretende chamar Criolo para repetir um dueto em Freguês da Meia-Noite, que fez sucesso numa participação dele no show do cantor paulista no Rio em 2012. No final, dentro do contexto da canção, Criolo começou a gritar: "Ordinário, cafajeste, sujo". "Ele xingava e eu ficando excitado", diz Ney, provocando gargalhadas. "Gostei tanto que quero ver se ele faz isso comigo na gravação."

O episódio diz muito sobre a proximidade que Ney tem do público jovem hoje, até mesmo a garotada fã do Tono. O mais curioso é que ele - que tem um grande fã-clube de senhoras bem animadas - percebeu o interesse dessa parcela jovem do público se revelou mais quando ele fez o show/disco cantando Cartola. O tempo é o seu lugar.

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