A truculência da era Putin, sem provocar o novo czar

Crítica: Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2012 | 03h10

Avaliação: REGULAR

Alexander Sokurov poderia muito bem ter encerrado sua tetralogia sobre os monstros da história revelando a face escura do novo czar da Rússia. Putin forneceria o fecho perfeito para o que ele já disse sobre Adolf Hitler (Moloch), Lenin (Taurus) e Hirohito (O Sol). Mas não é que Sokurov não queira se indispor com o novo regime. É que não lhe interessa. Ele certamente não é Sergei Loznitsa, que compra uma guerra a cada filme.

Fausto começa impressionante. A tomada muito alta refere-se ao início do livro de Goethe, à aposta no Céu, quando Mefistófeles desafia Deus de que conseguirá possuir a alma de seu favorito. Segue-se a lição de anatomia, difícil de suportar para estômagos sensíveis, mas que é o melhor do filme. Está tudo ali - a tragédia do Dr. Fausto, que, em busca de conhecimento, faz um pacto com o demônio para insuflar sua paixão pela técnica e pelo progresso.

Desde que ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza do ano passado, Fausto tem provocado um interesse extraordinário e, na verdade, vem alimentando um debate sobre a alta cultura e a baixa que estaria dominando o cinema atual. Digamos que o filme possui elementos para quem quiser defendê-lo, e até amá-lo. É árduo, difícil, chato, mas nada disso configura critérios estéticos de avaliação. O problema é conceitual.

Há exatamente dez anos, Sokurov propôs seu filme mais ambicioso - pelo menos até Fausto, e foi A Arca Russa. Um passeio pelo Museu Hermitage, em São Petersburgo, a capital imperial da Rússia. Na época, o digital beneficiava-se da consagração de Dançando no Escuro, de Lars Von Trier, no ano anterior, em Cannes. Valendo-se da nova tecnologia, Sokurov filmou A Arca Russa num único plano de 90 minutos. Mais que o virtuosismo técnico, interessava-lhe ir contra as teorias de montagem de Sergei M. Eisenstein, cujo cinema permanece, após a derrocada do comunismo, como a suprema realização da Revolução Russa.

Sokurov refaz ou se insurge contra o cinema soviético dos anos de ouro - contra Eisenstein, contra Pudovkin. Alexandra é a sua Mãe, e há que fazer justiça. É seu melhor filme (com O Sol). E assim chegamos a Fausto. O filme é interessante como prosseguimento das pesquisas de A Arca Russa. Sokurov usa planos sequências e a dinâmica dos cortes segue a divisão das cenas, pois a obra, embora concebida como peça, com diálogos rimados, é para ser lida, não necessariamente encenada (como faz o próprio Sokurov).

Por que o Fausto, personagem de ficção, encerrando a tetralogia que, até aqui, baseava-se em figuras reais? Um pouco pelo mesmo motivo que Sokurov não vai filmar Putin. Desde a sua época, e até hoje, por maior que seja o gênio de Goethe, ele foi sempre discutido pelo tratamento às mulheres (na vida) e pelo desprezo com o sofrimento do povo alemão (nas guerras). Otto Maria Carpeaux faz uma belíssima análise - como filho da burguesia feudal da Alemanha, Goethe percebeu que a revolução estava transformando seu mundo (no fim do século 18). Mas ele nunca quis ficar com o liberalismo da nova burguesia porque ela, não mais aristocrática, não compreendia o gênio. Voltando-se agora para Fausto, e Goethe, Sokurov realiza outro ato antirrevolucionário, em nome da alta cultura. O cinema a serviço da literatura. E ele ainda pode dizer que, com Fausto, está retratando a truculência da Rússia pós-comunista. Sem se indispor com Putin.

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