Alexandre Lima/Divulgação
Alexandre Lima/Divulgação

A tropa que quer derrotar o espiritismo

Filme de Padilha é o único que pode superar as bilheterias da onda espírita

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2010 | 00h00

Todos batem na mesma tecla. Tropa de Elite 2 foi mais fácil de fazer - e montar - do que o 1. José Padilha disse que reunir a mesma equipe - atores e técnicos - facilitou muito as coisas. O montador Daniel Rezende, que acompanhou o diretor no set e foi, ele próprio, diretor de segunda unidade, disse que muitas cenas já foram filmadas de olho na edição. Só Wagner Moura reconhece que o mergulho no personagem foi mais difícil.

"Nascimento ficou mais consciente, mais trágico. Nessa loucura toda, que é o mundo em que vive, ele descobre que tudo pelo qual lutou e se sacrificou é oco, foi desvirtuado. Foi um processo dolorido", admite. Nascimento foi o personagem que lhe deu o reconhecimento público. Ele sabe que é o astro, a alma da produção que toma de assalto 600 salas de todo o País. Tropa de Elite 2 está entrando somente em cópias em película. Faz parte do controle do filme. Todas as cópias possuem GPS e diferentes cenas foram criptografadas para impedir a pirataria e mapear tentativas de desvio do filme. "Para piratear o Tropa 2, só copiando da tela", gaba-se o diretor, que montou com Marco Aurélio Marcondes a estratégia de guerra. A Zazen, empresa de Padilha e Prado, contratou os serviços da distribuidora Europa, que terá os direitos do DVD.

O que parece uma operação razoável - distribuir o próprio filme - tem implicações profundas. Padilha abriu mão do contrato com as majors, que poderiam colocar dinheiro do artigo terceiro em Tropa 2. Isso significaria R$ 3 milhões a mais, mas Prado e ele fizeram os cálculos e chegaram à conclusão de que seria desvantajoso. O dinheiro do artigo terceiro, que as distribuidoras estrangeiras podem aplicar no cinema brasileiro, reduzindo a remessa de lucros, inclui uma série de deduções, de taxas e riscos. No fim, é bem menos do que os R$ 3 milhões que são investidos. Eliminando essa sangria, Padilha e Prado abriram espaço para que os "sócios" - investidores e integrantes da equipe - possam ganhar mais. Para isso, o filme tem de fazer sucesso. Se não fizer, não será por falta de qualidades nem de planejamento.

Hinos. Padilha está satisfeito com o filme que fez. Na terça à noite, não revelava nenhuma ansiedade quanto ao desempenho de público do filme, na estreia. A van que conduzia atores e o fotógrafo Lula Carvalho para o local da exibição - o repórter estava lá - entoava hinos de guerra das torcidas do Rio, Flamengo e Mangueira. Quando se descortinou o monumental cineteatro de Paulínia - a Hollywood brazuca -, alguém puxou o Está chegando a hora. Foi tudo muito emocionante, mas Padilha era a própria imagem do autocrontrole. Estava disfarçando? "Não consigo. Nem me queira ver nervoso", ele diz. Seu nervosismo dura enquanto ele pode mudar o filme, durante a montagem e a pós-produção. Com o filme pronto, ele se acalma.

Tropa 2 poderá ter uma vida internacional. Padilha vai tentar festivais como Sundance e Berlim. Na Berlinale, não quer concorrer, depois que o primeiro ganhou o Urso de Ouro, outorgado pelo júri presidido por Costa-Gavras. O filme agora mostra o Coronel Nascimento na Secretaria de Segurança Pública do Rio. A curva dramática centra-se na sua relação complicada com o filho e no combate às milícias. Como no 1, Padilha diz que foi feita uma extensa pesquisa. A ligação das milícias com a politicalha é real. A invasão da delegacia por milicianos que roubam armas, o político preso no plenário, o delegado que prende milicianos, tudo é verdadeiro, tudo aconteceu. Marcelo Freixo é a base do personagem de Fraga, interpretado por Irandhir Santos. Eles não se opõem só em relação às políticas públicas sobre segurança. Fraga, no filme, casa-se com a ex-mulher de Nascimento, faz a cabeça de seu filho.

Cenário. O Rio fornece o cenário e a união das milícias com políticos, chegando até ao palácio do governador, não é mero delírio de diretor. Só que, desta vez, Padilha queria extrapolar. Há uma dúvida sobre se Nascimento morre ou não - não vamos tirar a graça revelando o que ocorre. Mas o desfecho é em Brasília, uma tomada aérea da cidade, dos seus poderes, para mostrar como a corrupção e a violência são maiores. Padilha, ao contrário de Wagner Moura, não tomou partido publicamente, na primeira etapa da eleição presidencial. Para o segundo turno, ele espera que o filme ajude a levantar o debate sobre a questão da segurança.

José Padilha diz que Wagner é um ator que pensa como diretor. "Ele vê a cena como um todo, não fica só na sua parte." Wagner concorda. Admite que tem um projeto de direção e até pretende se isolar um pouco na Bahia, à espera do próximo filme - em março - para tentar amadurecê-lo. "Como ator, acho que meu papel é contribuir para que o diretor conte a história. Sem estrelismo, mas com conforto."

TROPA DE ELITE 2

Direção: José Padilha. Gênero: Drama (Brasil/ 2010, 118 minutos). Censura: 16 anos.

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