A tristeza poética na dor do viver

Esse é o tema dos contos de A Palavra Ausente, do carioca Marcelo Moutinho

MARIA FERNANDA RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2011 | 03h09

Em comum, os personagens de A Palavra Ausente (Rocco), livro de contos que o carioca Marcelo Moutinho lança hoje em São Paulo, têm aquela dor que é própria do viver, do estar, ou querer estar, só, e do esperar - um gesto, um sinal, um carinho, uma palavra qualquer.

"Eles têm uma tristeza que eu qualificaria como benigna, poética. A beleza das coisas levemente tristes num tempo de ditadura da alegria", comenta Moutinho. São, de fato, histórias bonitas e simples que retratam pessoas comuns que esperam que a vida entre nos eixos depois de uma perda ou que só se acostumam a viver mais ou menos bem, mais ou menos felizes.

É o caso do filho, adulto, que dá banho no pai doente e ausente no conto Água, que abre o livro. Ou da idosa Dalva em Interlúdio, que ainda espera, como sempre esperou, o toque do telefone. Em Jogo-Contra, um garoto reluta em convidar o pai para assistir ao campeonato de futebol do bairro com medo de fracassar. Supera a insegurança, faz o convite, perde a partida e ainda deixa um prejuízo para o pai, que não liga e está feliz só por estar ali. Morte, separação, demissão são alguns dos temas da obra.

Quando Moutinho viu que a questão da ausência marcava tudo o que vinha escrevendo espontaneamente, tratou logo de criar outras histórias para fechar o livro, que lança agora, dez anos depois de sua estreia com Memória dos Barcos (7Letras). Isso porque ele prefere, como diz, a ideia de "contos orgânicos", que estão na obra por algum motivo, a uma mera coletânea de textos escritos de forma aleatória.

Nesses dez contos, as relações familiares são quase onipresentes. E todas as histórias se desenrolam em ambientes nem tão ricos nem tão pobres, algo que o autor vem buscando desde seu título anterior Somos Todos Iguais Nesta Noite (Rocco) por achar que a classe média baixa seja pouco retratada pela literatura contemporânea.

"Me incomoda um pouco essa concentração de histórias no universo da classe média alta ou da favela e periferia, ignorando um mundo que há no meio e a vida dessas pessoas com seus amores, suas dores e epifanias."

Outros dois temas pouco presentes na literatura contemporânea, apesar de impregnados no imaginário brasileiro, na opinião de Moutinho, são o futebol e o carnaval. Aliás, duas paixões do escritor.

Império Serrano roxo, foi num dos ensaios da escola carioca que ele viu, no banheiro, o senhor responsável pela limpeza dançando com o rodo enquanto empurrava a urina ralo abaixo. "Foi comovente ver a estupenda e contida alegria daquele homem naquela situação, num banheiro com cheiro de mijo, suor e desinfetante barato. Ver a forma como ele, sem nunca ter lido Calvino, intuitivamente, procurou, dentro do inferno, o que não é inferno."

Moutinho, que é também jornalista, deixou o lado repórter para lá e só imaginou como poderia ser a vida desse faxineiro. Criou então Silas, protagonista do conto Folia, que não chega exatamente a dançar com o rodo no banheiro - talvez o faça na imaginação, mas que prepara o uniforme cinza, sem graça, como se fosse dia de desfile e ele ainda fosse o mestre-sala. É nessa rotina que ele procura um sentido para sobreviver aos dias sem Áurea, sua porta-bandeira.

Alguns dos textos já haviam sido publicados em outras coletâneas. Cavalos-Marinhos, por exemplo, foi escrito para Como Se não Houvesse Amanhã (Record), de contos inspirados em músicas da Legião Urbana, e narra o dia da mudança de um casal gay recém-separado.

Embora esteja escrevendo um romance pela primeira vez, Marcelo Moutinho é um grande defensor do conto e receia que o gênero tenha o mesmo destino da poesia dentro das editoras brasileiras, ou seja, pouco espaço e interesse editorial.

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