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A triste história de Dona Ema

Dona Ema se apressava, transpirava, corria, temperava, aquecia e, em torno das 14 horas, servia a refeição

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2016 | 02h00

Dona Ema era uma mulher fantástica. Sorridente, simpática, robusta e corada. Todos, na família e no bairro, adoravam-na. Apesar dos 68 anos, Dona Ema trabalhava como poucos. Cuidava de 3 netos e de uma casa de 200 metros quadrados. Como se isso não fosse trabalho suficiente, tomava conta da mãe, de 89 anos. E como se isso não bastasse, era voluntária num orfanato três vezes por semana.

 

Dona Ema não tinha sossego. Logo que acordava, fazia o café do Irineu. Arrumava os quartos, incluindo o do Luiz Henrique, filho caçula, que, apesar dos 32 anos, não dava grandes indícios de querer sair daquela casa. Cozinhava, lavava, passava, limpava, polia, espanava e lavava de novo. Esquentava a comida dos netos, engomava a camisa do Irineu, organizava a festa de Natal do orfanato, regava as plantas. Era a última a deitar e a primeira a levantar.

Apesar da vida corrida, os pais, filhos e netos almoçavam todos juntos no domingo. Faziam isso por Dona Ema, que todos tinham certeza de que via aquela reunião como momento favorito da semana. Somando a família com alguns amigos dos filhos e alguns primos dos netos que sempre apareciam, o almoço sempre contava com pelo menos 15 pessoas.

Dona Ema se apressava, transpirava, corria, temperava, aquecia e, em torno das 14 horas, servia a refeição. A filha dizia ao marido “nem ofereço ajuda, porque ela adora cuidar de cada detalhe”. Os netos reclamavam dos verdinhos na batata. Irineu perguntava se tinha acabado o molho de pimenta. Dona Ema levantava-se para buscar o molho na geladeira. Irineu achava aquilo natural. Por vezes, um dos filhos fazia um elogio a algum prato.

A refeição acabava. O filho mais velho saía apressado com a esposa porque sempre tinham outro evento na sequência. A filha ia para o sofá descansar. O genro trabalhava no notebook. Irineu lia o jornal. Luiz Henrique tirava sua soneca. Os netos zoneavam a casa que seria arrumada posteriormente pela avó.

 

Dona Ema ficava sozinha na cozinha, jogando os ossos do frango e os verdinhos da batata no lixo. Quando acabava de arrumar tudo, sentava-se para ler. Tinha cerca de 40 minutos até ter que começar a ajeitar o jantar. Mas a família não tinha dúvidas de que ela adorava tudo aquilo. “Ela nasceu para servir bem, é um verdadeiro talento”, disse o filho mais velho uma vez.

Ocorre que Dona Ema começou a ter algumas falhas de memória. Atrasava o almoço. Esquecia de temperar a carne. Salgava o molho duas vezes. A família, no começo, fez o favor de criticar com veemência. Depois começou a perceber que havia algo de errado. Algo mais grave estava acontecendo com Dona Ema. Confundia o vinagre balsâmico com a coca zero, o queijo ralado com a farinha de rosca. Uma tristeza. A comida ficou intragável.

Dona Ema marcou consulta no neurologista. Não quis incomodar, disse que iria sozinha. Voltou da consulta com o Dr. Tavares muito aborrecida. Disse tratar-se de um caso raro, que não afetava a memória como um todo, mas apenas os atos repetitivos, como cozinhar, lavar e passar. Logo aquelas tarefas que ela tanto adorava, lamentava a família.

Passaram a encontrar alternativas. Luiz Henrique aprendeu a fazer risoto. O filho mais velho começou a pagar uma diarista para os pais. A filha aprendeu a trocar as fraldas dos próprios bebês. O genro comprava os pães. Irineu aprendeu onde ficava o molho na geladeira. Tudo acabou se ajeitando.

“Terezinha, foi a melhor coisa que eu fiz. Você devia experimentar. Nunca mais fiz NENHUM almoço no domingo, nem no Natal. Uma maravilha, consigo ler livros inteiros. Erre no tempero, invente um médico e diga que tem uma síndrome qualquer. Sua família vai ficar ótima, vai ajudar como nunca.”

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