A triste e irreverente dama Dercy Gonçalves

Na minissérie Dercy de Verdade, que sai em DVD, a comediante se revela moralista feroz, diferente da imagem que carregou

Entrevista com

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2013 | 02h12

Quando se lembra de Dercy Gonçalves (1907-2008), a imagem imediata é a da comediante desbocada e irreverente. "Mas, no fundo, era uma mulher moralista e até puritana", defende a teledramaturga Maria Adelaide Amaral, autora de uma biografia (Dercy - De Cabo a Rabo) e da minissérie Dercy de Verdade, exibida pela Globo no ano passado e que chega agora em DVD.

São quatro episódios que buscam perfilar a mulher nascida Dolores, obrigada a deixar a cidade natal por conta de um pai repressor e violento até chegar ao Rio de Janeiro, onde fez a sua fama, primeiro no teatro burlesco, depois no cinema e na TV.

Com direção de Jorge Fernando, a série contou com Heloisa Périssé estreando como atriz dramática em grande performance ao interpretar a jovem Dercy e Fafy Siqueira, eleita pela própria comediante como sua herdeira artística, vivendo a fase final. Sobre o trabalho de roteirizar uma vida tão plena de surpresas e decepções, Maria Adelaide respondeu, por e-mail, às seguintes questões.

O maior desafio na minissérie foi evitar que Dercy ficasse reduzida àquela imagem da velhinha que falava palavrão?

Sim, porque ela era muito mais que isso, mas não tenho certeza se ela tinha consciência da sua dignidade e da sua importância.

Quais tabus a Dercy ajudou a derrubar, seja no teatro, seja como uma comediante?

Sem dúvida a irreverência. O curioso é que ela só começou efetivamente a dizer palavrões em cena no final dos anos 40, mas antes e depois disso ele estava na sua voz, pausas, olhares e trejeitos. Na época da ditadura militar, por exemplo, havia um quadro no seu programa de TV em que ela contava histórias infantis. A censura chegou a proibir que a câmera exibisse suas mãos e depois o rosto, e terminou proibindo o quadro alegando que Dercy era verdadeiro atentado à moral da família brasileira.

Qual a maior surpresa em relação à história pessoal da Dercy você conseguiu apresentar na minissérie?

A tristeza atrás da irreverência e seu moralismo feroz. Nada para ela era mais importante que a família. Sua filha Decimar tinha que ser um modelo de conduta, sobretudo porque era filha de Dercy Gonçalves.

Como você mediou o uso do palavrão em um programa de TV?

Não precisei mediar. Como o programa entrava no ar depois das 22h30, eu só tomava o cuidado de fazer a Dercy soltar os palavrões depois da 23 horas.

Como avalia o trabalho de Fafy Siqueira e Heloísa Périssé no papel de Dercy?

A Heloísa fez brilhantemente o contraponto entre a Dercy desbocada e sua obsessão pela respeitabilidade. Ela protagonizou os momentos mais dramáticos e patéticos da vida da Dercy, inclusive seu esforço heroico em sustentar um casamento insustentável, para que a filha fosse conduzida ao altar pelo padrasto. O que afinal acabou não acontecendo. Mas a Decimar foi levada ao altar pelo futuro sogro e casou virgem, tal como Dercy desejava. A Dercy da Fafy é mais focada na comicidade e na imagem debochada e desbocada que ela mesma se encarregou de transformar em sua marca registrada.

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