A trilha sonora de uma cidade doente

Quarteto Passo Torto lança álbum que aposta em sonoridade crua para tratar de diversos aspectos da vida urbana

LAURO LISBOA GARCIA , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2013 | 02h10

Sexo, desespero, melancolia, destruição urbana, ironia, solidão, guitarras distorcidas. Tudo isso vem interligado e em doses violentas no segundo álbum do quarteto paulistano Passo Torto, Passo Elétrico, que tem show de lançamento hoje no Sesc Vila Mariana, e é desde já um dos álbuns mais significativos do ano na música brasileira moderna.

Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos e Rômulo Fróes, compositores, intérpretes e músicos, radicalizaram ainda mais o conceito do álbum anterior (que era acústico), enfiando a faca nas feridas da cidade e de seus habitantes, com uma contundência raramente vista/ouvida.

Boa parte das letras critica a espantosa, veloz e constante demolição de casas de São Paulo para dar lugar a gélidos "pombais" verticais. Paralelamente a essas ações, o que há de mais humano cai junto: a memória, o amor, o sossego. Duas canções que melhor explicitam essa dura poesia concreta de cada esquina são Buraco (música de Cabral, letra de Kiko) e A Cidade Cai (música de Kiko, letra de Rômulo), que diz: "Construção / Demoliram até meu coração". Passarinho Esquisito (música de Rômulo, letra de Rodrigo) é outro achado: "Não tem os olhos de papai, mas tem cara de estuprador / Não tem as pernas de mamãe, mas tem medo da solidão".

Na sonoridade crua, só cordas - e a guitarra ganha evidência sobre baixo, violão e cavaquinho, dos quais evoluem sambas tortos com barulho de rock. "Em todo ensaio, percebíamos a cidade desmoronando, mas não pensávamos em falar disso no disco", diz Kiko. "As músicas foram saindo, como Helena, que fala de uma cidade doente. É engraçado como isso linkou de algum jeito com as temáticas sexuais do disco. O sexo aparece como algo decadente, destrutivo. Tem muito a ver com essa fome de crescimento de São Paulo."

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