A trama da loucura

Obra traz a primeira avaliação depois de surto e jornais dos tempos do ringue

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2013 | 12h23

Saber o que passava na cabeça de Bispo do Rosário é tão tentador quanto impossível. Usando suas palavras: “esse negócio é muito mistério”. Ele se referia à voz que ouvia, mas a frase pode ser empregada para narrar sua trajetória e sua personalidade. Arte Além da Loucura, o livro que Frederico Morais lança hoje, 30 anos depois de sua primeira visita à Colônia Juliano Moreira e duas décadas depois de ter se afastado do assunto que tanto o encantou porque não concordava com o rumo que estavam dando à obra de Bispo, é uma tentativa de organizar tudo o que já foi descoberto acerca da figura do artista – por ele mesmo e por outras pessoas que deram importantes contribuições para tecer essa trama, como Luciana Hidalgo, autora de O Senhor do Labirinto, e Hugo Denizart, que fez o documentário O Prisioneiro da Passagem.

Há novidades na obra. A psicóloga e pesquisadora Flavia Corpas, organizadora do volume, tanto procurou que encontrou o primeiro prontuário de internação de Bispo, no Hospital Nacional de Alienados da Praia Vermelha. Datado de 26 de dezembro de 1938 e assinado pelo médico Durval Nicolaes, é o achado recente mais importante.

Nele, lemos que após um acidente de trabalho na Light, que o deixou manco para o resto da vida, Bispo, que já tinha passado pela Marinha, se interessou por “estudos ocultos”. “Começou a fazer penitências seguidas para purificar-se e ver se podia servir a Jesus Cristo”, anota o médico. O mais interessante de seu relatório, porém, diz respeito ao surto psicótico de Bispo, no dia 22 de dezembro daquele ano. Ao médico, o paciente contou que poucos dias antes tivera três sonhos. No primeiro, era alvejado no peito por um desconhecido e, agonizante, via Cristo. No segundo, presenciou uma chuva de estrelas. Houve um terceiro, mas o relatório não o detalha. O que importa é que ainda sob a impressão dos sonhos, seguiu a um convento para se apresentar a Jesus. Foi preso, tido como maluco. Entre esse surto de 1938 e a morte, em 1989, só passou 15 anos fora do hospício, período em que trocou sua mão de obra por roupa, comida e cama.

Curiosa a descrição que o médico faz dele: “ares de importância”, “associa ideias com relativa extravagância”. Em meio século de delírio, Bispo achava que era Jesus Cristo e que deveria se apresentar ao seu “vigário”.

Flavia Corpas explica que o delírio foi uma forma dele se ancorar no mundo. “Ele ia englobando a realidade dentro do delírio, para que isso fizesse sentido.” Do uniforme, extraiu as linhas com que bordaria seus estandartes. Da cela do hospício, fez seu ateliê. Sua matéria-prima era coletada no hospício. Mas isso não foi suficiente. “E por isso ele cria a obra dele, e depois essa obra passa a engendrar sua vida.”

Frederico Morais descreve esse acervo no livro e conta o que foi decifrando, palavra por palavra, desenho por desenho, nos anos em que passou imerso no universo de Bispo do Rosário. Foi num dos estandartes que encontrou nomes de pugilistas. Em outro, Bispo bordou um ringue. Com essa informação, Flavia Corpas foi pesquisar jornais de época e comprovou que Bispo foi mesmo lutador de boxe. Foram 33 lutas, 30 derrotas, um empate e uma vitória. Nunca, porém, foi nocauteado.

Há pouco a ser descoberto acerca de sua vida, acreditam os pesquisadores. Mas um assunto ainda intriga Morais: o período em que o artista foi garimpeiro.

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