A trajetória de Volpi em 18 telas, vista pelo contemporâneo Pasta

A pintura italiana teve um papel fundamental no desenvolvimento da arte brasileira após 1930, também por causa da imigração, mas principalmente pelo diálogo com os grupos de artistas que se formavam na época, dos quais o mais lembrado é o Santa Helena, integrado, entre outros, por Alfredo Volpi, Aldo Bonadei, Fúlvio Pennacchi e Mario Zanini, nenhum deles de família rica, ao contrário de patrícios que formam o embrião da coleção Ciccillo Matarazzo, como Arturo Tosi (1871-1956), filho de industriais. Pennacchi, que depois se casaria com uma Matarazzo, é um dos pintores representados na mostra paralela aos artistas do Novecento italiano, mas é Volpi o grande destaque, até mesmo por ser o principal pintor moderno entre os imigrantes que se estabeleceram no País.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2013 | 02h19

Volpi ganhou uma sala à parte no quinto andar da nova sede do MAC, onde antes funcionava o Detran. São 18 telas entre as 21 que estão no acervo do museu, a maioria proveniente da coleção particular do crítico turco Theon Spanudis (1915- 1986), um dos grandes incentivadores de Volpi a partir de 1950, quando o psicanalista se estabeleceu no Brasil.

A coleção das obras de Volpi do MAC/USP, segundo o curador da mostra, o também pintor Paulo Pasta, "é muito representativa de sua passagem do figurativo para os esquemas figurados do real, em que ele conquista a autonomia do plano". Isso é especialmente visível, observa Pasta, nos casarios de Itanhaém e Mogi das Cruzes, pintados entre o fim da década de 1940 e o começo dos anos 1950. É uma transformação "muito sofisticada", ainda de acordo com o curador, pois Volpi, ao trocar a tinta a óleo pela têmpera, simplifica as formas, submetendo-as a um processo de depuração.

"Penso que Volpi, com esse movimento, cria uma espécie de evasão para o cotidiano, como Manuel Bandeira na poesia, que fez deslocamento parecido, voltando seus conteúdos para a experiência comum." Esse movimento não resultou apenas numa mudança temática, mas principalmente formal, conclui Pasta, atribuindo a Volpi uma sintonia fina com as questões de sua época.

A transição do óleo para a têmpera, como observou o crítico Lorenzo Mammì, permitiu a Volpi garantir o valor absoluto da cor, conciliando Morandi e Matisse. Sobre essa simplificação formal, Mammì observou, em monografia sobre ele, que Volpi faz essa síntese numa das telas da mostra, Casa na Praia de Itanhaém (década de 1940/50), em que as linhas oblíquas da casinha "sugerem ao mesmo tempo perspectiva e plano".

Iletrado, Volpi criou uma pintura sofisticadíssima, de rara inteligência visual, "a pintura menos neurótica que eu conheço", como diz o curador Paulo Pasta, identificando-se com o pintor justamente pela busca matissiana da harmonia e da beleza criadas pela formas, sejam elas as "bandeirinhas", os "mastros", as "fachadas" ou os brinquedos populares reunidos pelo curador numa única parede em frente a uma das mais soturnas telas de Volpi, conhecida como Barco da Morte, pintura em preto e branco em tudo próxima aos metafísicos italianos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.