A traição, segundo o russo Kirill

Yzmena (Betrayl) é um estranho filme russo, dirigido por Kirill Serebrennikov. Vamos chamá-lo por seu nome, Traição, porque é dela que se trata, desse que é um dos mais antigos e recorrentes assuntos do cinema, desde que ele surgiu. Em meio a essa, digamos assim, banalidade, Kirill tenta ser original.

O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2012 | 03h13

Eis como: um homem e uma mulher descobrem que estão sendo traídos e seus respectivos cônjuges estão tendo um caso. Esse argumento, nem tanto diferente assim, é conduzido, no entanto, com uma pegada cheia de personalidade própria. É verdade que, mais próximo do fim, algumas situações se repetem um pouco, no todo, ele é bem imprevisível.

Sobretudo porque, mesmo no paroxismo do sofrimento, causado pelo ciúme, Kirill usa o recurso da ironia, o que ao mesmo tempo causa um certo distanciamento e uma possibilidade de compreensão expandida, que vão além do registro puro da dor. Ou do prazer.

O próprio Kirill, em pessoa, se esforça em parecer original. Quando lhe pergunta, se vê reflexos Dostoievski em seu filme, ele responde que respeita, porém detesta o escritor de Os Irmãos Karamazov e Crime e Castigo. "O homem russo não é m personagem de Dostoievski", diz. "Talvez eu seja mais influenciado por Gogol do que põe ele."

Mesmo aproximações com cineastas não o agradam. Falou-se em Veneza no parentesco de Traição com algumas obras de Hitchcock, David Lynch ou Antonioni. Apenas uma confissão: o amor a Bergman. "Vi filmes como Fanny e Alexander e Gritos e Sussurros, e eles mudaram minha vida", conta.

Sente-se pouco, no entanto, uma das grandes virtudes de Bergman, que é o aprofundamento sensível do personagem. Em que pesem seus méritos, Traição mostra certa frieza que, se não compromete, ao menos relativiza seu impacto sobre o espectador. / L.Z.O.

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