A tragicomédia do feminismo

Siri Hustvedt dá um guinada na carreira e escreve livro engraçado sobre separação

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2013 | 02h27

A escritora norte-americana Siri Hustvedt, aos 58 anos, parece ter chegado a um ponto de equilíbrio entre o trágico e o cômico, apesar dos motivos pessoais para ser mais inclinada ao primeiro gênero - entre outros problemas, ela começou a sentir estranhos tremores durante uma cerimônia realizada há sete anos em homenagem ao pai morto, apenas controlados com doses maciças de drogas contra a ansiedade e o pânico.

Siri, descendente de noruegueses e casada com o escritor Paul Auster há 32 anos, fala em seu novo livro, O Verão Sem Homens, de uma separação traumática. Mia, poeta e filósofa, igualmente casada há 30 anos com Boris, neurocientista, é surpreendida com uma proposta do marido, de dar "uma pausa" no relacionamento.

A "pausa" é uma francesa 20 anos mais jovem. Mia sofre um colapso nervoso e vai parar no hospital. A volta ao lar é um desastre: sentindo-se deslocada em seu apartamento no Brooklin, decide passar o verão em sua cidade natal, nas pradarias de Minnesota, onde cresceu.

Em seu quinto romance, Siri Hustvedt fala da dor da separação e do recomeço numa realidade suburbana, entre octogenárias que moram num condomínio fechado, como sua mãe, e adolescentes de uma oficina de poesia cuja linguagem provoca suspeitas de que sejam criaturas intercambiáveis. Ainda assim, longe da presença masculina e convivendo com mulheres de diferentes gerações, Mia se torna mais serena, capaz de achar graça até da sintaxe rudimentar de suas sete alunas da oficina de poesia.

Siri é uma escritora intelectualmente preparada, leitora dos grandes filósofos, crítica de arte e ensaísta respeitada - um de seus mais recentes ensaios pergunta se seria possível a existência de um Steve Jobs mulher, concluindo que um ícone do capitalismo como ele não resistiria num corpo feminino (Jobs, justifica ela, seria uma projeção mítica do hipermasculino, predominante na era tecnológica). Mia é uma resposta a esse mito. Fragilizada, ela redescobre sua força interagindo com outras mulheres, entre elas a nova vizinha, mãe de duas crianças e casada com um homem agressivo e ausente.

De Nova York, por telefone, Siri, que tinha uma admiração gigantesca pelo pai professor - a ponto de sofrer um colapso nervoso com sua ausência -, afirma não ter pretendido escrever um romance de tese. Antes, tentou emular o estilo da "screwball comedy" (comédia maluca, onde vale tudo) em voga no cinema hollywoodiano dos anos 1930 e 1940.

Seu parâmetro, revela, foi a comédia The Women (As Mulheres), dirigida por George Cukor em 1939, cujo elenco é todo feminino - e são nada menos do que 130 mulheres no filme. Nele, uma socialite (Norma Shearer) descobre que o marido a trai com uma vendedora de perfumes e parte para o interior, como a personagem do livro de Siri, onde encontra outras mulheres também divorciadas, descobrindo um novo e interessante mundo, onde existe até uma escritora lésbica (Florence Nash).

"Não pensei em escrever um livro para ser filmado, mas creio que ele daria um filme muito engraçado", diz Siri, cujo marido, Paul Auster, é também cineasta (O Mistério de Lulu) e pai de uma atriz, Sophie Auster. Antes de tudo, garante a escritora, sua intenção era mostrar que as mulheres são mais do que reprodutoras e ainda vítimas do que classifica de uma "biologia ideológica". Há diferenças entre homens e mulheres? Evidentemente, mas não abissais. "Isso explica a razão de eu ter escolhido o diálogo entre Irene Dunne e Cary Grant no filme Cupido É Moleque Teimoso como epígrafe do livro", revela.

Para quem não viu o filme de Leo McCarey (The Awful Thing, na versão original), Cary Grant tenta convencer Irene Dunne de que as coisas podem mudar no relacionamento entre os dois: "Você não acha que as coisas podem voltar a ser como eram antes? Só que diferentes?", pergunta o personagem de Cary Grant à esposa, já com a identidade reconfigurada após a experiência de retorno às origens. "As pessoas esquecem que essa história de emancipação feminina é velha, uma experiência que nasceu nos EUA nos anos 1920, e que ela responde hoje pelo fato de 40% das mulheres americanas serem as provedoras do lar." Dito assim, pode parecer que O Verão Sem Homens é um libelo feminista, mas não. Ela é esperta demais para cair na armadilha. Não deixa de explorar a ignorância que impera na cidade natal de Mia, onde um inocente poema de D.H. Lawrence causa escândalo entre as mães de suas alunas, algumas bastante fúteis.

O livro é extremamente irônico, analisa a autora, que admite ter recorrido a formas literárias experimentais (hoje clássicas, como o fluxo de consciência joyciano e a narração não linear) para associar sua parábola de renascimento e reintegração social a um recurso formal que desintegra a literatura para que ela, paradoxalmente, possa sobreviver. A demolição da biologia evolucionista, por meio das críticas que Mia faz ao marido cientista, vem acompanhada de autocrítica, quando Siri toca em histeria feminina e outros temas subjacentes.

Ela só não admite que seu evocativo e tragicômico livro tenha como heroína uma mulher cujas referências são exclusivamente masculinas, como assinalou um crítico, que sentiu falta de citações a Simone de Beauvoir e Margaret Fuller no lugar de luminares do mundo dos homens. "Não vejo razão para Mia não falar em Freud ou Kierkegaard", rebate a autora.

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