João Caldas/Divulgação
João Caldas/Divulgação

A trágica família mineira

Gabriel Villela dirige Crônica da Casa Assassinada, versão do livro de Lúcio Cardoso, e reforça ligação da obra com os clássicos gregos

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2011 | 00h00

A hora do encontro com as origens sempre chega. Pode até tardar, mas não falha. A vez de Gabriel Villela chegou. O diretor mineiro fez fama com seu estilo vigoroso e extravagante. Desde a década de 1990, relê e reinventa textos de Shakespeare, de Schiller, de Nelson Rodrigues. Agora, no entanto, ele diz caminhar em direção ao essencial: está prestes a se encontrar, pela primeira vez, com a tragédia grega. "Demorei 50 anos, mas agora precisava ir. É um caminho natural. Uma necessidade de todo artista, de combinar estilos, criar antíteses."

Para novembro, ele prepara Hécuba, versão do clássico grego de Eurípedes. Antes, porém, de deparar-se com a tragédia em estado puro, preferiu experimentar esse conteúdo mítico em um território mais "familiar". Entra em cartaz nesta sexta Crônica da Casa Assassinada, uma transposição teatral do romance de Lúcio Cardoso.

Foi na obra de seu conterrâneo que Villela descobriu as questões que queria desvelar. As oposições entre barbárie e civilização, entre medida e desmedida, entre os impulsos de vida e de morte. "O mito nunca aconteceu, mas sempre existiu", acredita o diretor. "Ele está lá na minha terra, em Minas Gerais, tão eficiente como em Troia. A estrutura social em torno dele se modifica, mas o seu núcleo central não se altera."

Coube a Dib Carneiro Neto - dramaturgo, jornalista e ex-editor do Caderno 2 - a tarefa de verter o romance caudaloso para a cena. Deparou-se com mais de 500 páginas. Saiu de lá com um texto condensado, que não ultrapassa uma hora de encenação.

Apesar da síntese, a peça conserva muitos dos traços estilísticos que notabilizaram o livro. Não abre mão da forma fragmentária da obra, que foi escrita como um compêndio de cartas e diários. Tampouco se esquiva do jogo que Lúcio Cardoso faz com o tempo, deixando o leitor em estado de suspensão. "É como se o público se deparasse com todas essas cartas de uma vez e as fosse lendo ao acaso, sem uma ordem definida", comenta o dramaturgo, que já havia trabalhado ao lado de Gabriel Villela em Salmo 91.

Quebra-cabeça. Tudo o que a princípio parece embaralhado, vai se esclarecendo conforme a encenação avança. Aos poucos, desfazem-se os nós de mistério que amarram o clã dos Meneses. Trancada em um casarão em ruínas, a família decadente expõe todos os seus vícios.

É a volta de Nina (Xuxa Lopes), após um exílio de 15 anos, que serve como disparador de paixões desenfreadas. Uma teia de crimes, vingança e incesto. "Tudo o que na tragédia grega é desmesura, surge aqui como pecado. Localizado em Minas, que é justamente a pátria do pecado, da culpa", considera o diretor.

A religiosidade mineira contamina a cenografia de Marcus Vinicius, que leva o pórtico de uma igreja barroca para dentro da sala do casarão. Também impregna os figurinos negros, sisudos - assinados pelo próprio Villela e indicados para o Prêmio Shell do Rio de Janeiro. Recordista de indicações no primeiro semestre deste ano, Crônica da Casa Assassinada concorre ainda nas categorias direção, cenário e iluminação.

Existem vínculos da trama de Lúcio Cardoso com as peças míticas de Nelson Rodrigues. Fato que não passou despercebido a Dib. O dramaturgo revela que foi beber diretamente no autor de Álbum de Família. Lá, encontrou, sobretudo, o sopro com o qual construiria os diálogos.

Se os laivos de brasilidade aparecem nas filigranas, na macroestrutura é o formato da tragédia clássica que volta a insinuar-se como referência.

Descolados do núcleo central, as figuras do médico, do farmacêutico e do padre comportam-se como se partes de um coro grego: narrando e comentando as ações dos protagonistas.

A forma também ajuda o encenador a escapar da carga psicológica, que desponta com força no romance. Tira os personagens de sua conformação individual e reforça sua aura de mito.

"Nas mãos de outro diretor, essa sondagem psicológica talvez resultasse num naturalismo ou num realismo", observa o diretor assistente, Ivan Andrade. "Mas, neste caso, a sonda é tão profunda que vai para o campo do devaneio, do onírico."

COMPARE ROMANCE E PEÇA

"No fundo do pensamento, em que não sei que região, imagino que ao amanhecer ...

...ela ainda reclamará suas flores, aquelas mesmas flores que nos derradeiros tempos cercavam-na, não como um adorno ou um consolo, mas do modo aflitivo e desesperado de quem procura ocultar sob seu efeito a indiscrição de uma miséria latente. Tudo se aquieta em mim, a mentira me torna redivivo. Continuo imaginando que logo após descerei as escadas da Chácara e irei catar violetas pelos canteiros mais distantes, lá pelo lados do Pavilhão, onde ainda sobram antigas touceiras em meio ao mato. (...) Mais uma vez ouço nitidamente sua voz - lenta e sem timbre - que suplica: "Na janela, meu bem. ponha essas flores na janela"."

"NINA - As minhas violetas.Na janela, meu bem.

ANDRÉ - Na janela?!

NINA - Esqueceu, meu amor? Ponha as flores como sempre, na janela. Mas que imprudência! Não sabe que o médico me recomendou repouso absoluto?

Ele?

NINA (sempre em tom de delírio, resfolegando, sussurrando) - Já estou pensando no que ele vai dizer

quando me vir de novo de pé no jardim...

ANDRÉ (interrompendo) - Mãe!"

CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA

Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141, telefone 5080-3000.

6ª e sáb., às 21 h; dom., às 18 h. R$ 6 a R$ 24. Até 16/10. Estreia sexta

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.