A tragédia do isolado no mundo das redes

Luiz Schwarcz fala do problema da incomunicabilidade em novo livro

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2010 | 00h00

Vida privada. A exemplo da amiga e escritora Cynthia Ozick, ele cria intimidade com o leitor                    

 

 

 

 

 

 

 

 

Era para ser um romance, mas acabou virando um livro de contos, o segundo na carreira do editor Luiz Schwarcz, fundador da Companhia das Letras, que há cinco anos estreou como autor adulto com Discurso sobre o Capim (ele já escrevera um infantil, Minha Vida de Goleiro). Em Linguagem de Sinais, que será lançado dia 14, na Livraria Cultura, ele reúne pequenos contos cuja história começa justamente em 2005, quando Schwarcz publicou esse seu primeiro livro de curtas narrativas e viajou para Lisboa para participar do lançamento mundial de Ensaio sobre a Lucidez, do amigo José Saramago (1922-2010). No avião, tentou preparar um discurso para a ocasião, mas sua atenção foi desviada por um passageiro idoso, portador do mal de Alzheimer, que atrasou o voo ao insistir que queria desembarcar em Faro sem passar por Lisboa.

O episódio não lhe saiu da cabeça e, antes do pouso, conseguiu rabiscar duas ou três linhas sobre o que deveria ser, enfim, o romance, cujo tema estava relacionado ao "garoto selvagem" Victor de l"Aveyron, nascido no fim do século 18 e que inspirou o filme clássico de Truffaut sobre esse menino de 8 anos encontrado por camponeses num estado de bestial afasia. Ele tomou forma e chegou a ter 129 páginas em três anos. Outros personagens foram entrando na história até que Schwarcz perdeu o controle e todos foram parar na lixeira do computador. Sobrou o senhor com Alzheimer, personagem central do conto Faro. Com ele na cabeça, o autor ambientou a história no cemitério português de Faro, em que 170 almas da extinta comunidade judaica do Algarve descansam. Distraído, o protagonista é interpelado por um garoto que recita um mantra e equilibra um par de óculos pesados sobre o nariz, idênticos na vida real ao do velho do avião. Vida e morte, então, se cruzam em Faro, como em outros contos do livro que trazem dados autobiográficos, dos quais o mais comovente é Pai.

É possível identificar aqui e ali algumas referências à traumática morte do pai do autor, ocorrida durante a feitura do livro, e a retomada do contato do editor com suas raízes judaicas, traduzida numa passagem em que André, antes de viajar para assinar um contrato com sócios estrangeiros, visita a sinagoga e senta-se no lugar vitalício do pai. O personagem é filho de um tapeceiro, salvo apenas porque seu pai o empurrou do trem que o conduzia ao campo de Bergen-Belsen, onde morreu Anne Frank. Para esse filho, que era o pai do editor, Luiz Schwarcz escreveu o livro, atendendo a um desafio do escritor Tomás Eloy Martínez, o primeiro a ler esses textos. O escritor e jornalista argentino, morto no dia de 31 janeiro, teve papel decisivo na publicação do primeiro livro de contos de Schwarcz , Discurso sobre o Capim: "Ele ameaçou publicá-lo, mesmo sem minha autorização, se eu não o fizesse."

Metáfora. Nesse primeiro livro, incapazes de comunicar suas emoções, os personagens do autor vivem quase como autistas, representados pela figura do garoto do conto de abertura, que brinca de Deus no silêncio de seu apartamento. Em Discurso sobre o Capim, também é possível identificar Schwarcz num conto, Acapulco, por meio da figura de um menino que folheia um álbum de fotos de família e se reconhece no garoto com um gigantesco chapéu mexicano na turística praia mexicana, lugar de saltos mortais que servem de metáfora para a perda de fôlego, para a afasia de seus personagens.

"Acho que Linguagem de Sinais radicaliza a questão da incomunicabilidade de Discurso sobre o Capim", analisa. Traduzido para o francês e o italiano, o primeiro livro ganhou um fã imediato, o exigente Alberto Manguel, que lia para Jorge Luis Borges nos anos 1960. Schwarcz revela que a leitura de Oliver Sacks, outro de seus autores, ajudou muito a escritura de seu livro, que tem personagens portadores de deficiências - surdez, Alzheimer - ligadas ao isolamento, tema principal do livro, seguido da morte. Pessimista? Schwarcz diz que está mudando: "Acho que o conto Quem É? é francamente otimista." Em tempo: fala de um garoto com mania de apertar campainhas. Ele mesmo.

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