A tragédia da vida que parece escapar

O chadiano Haroun, premiado em Cannes e na Mostra SP, fala de seu longa, Um Homem Que Grita

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2010 | 00h00

Mahamat Saleh Haroun tinha 9 anos quando um tio o levou, no Chade, para ver seu primeiro filme. Era uma produção de Bollywood e o garoto ficou siderado com a indiana que, da tela, parecia sorrir especialmente para ele. Haroun descobriu depois autores como Roberto Rossellini e Robert Bresson. Descobriu Friedrich Wilhelm Murnau, que lhe forneceu a chave para Um Homem Que Grita, seu belo filme que estreia hoje. "O meu Murnau não é o expressionista, mas o realista. A Última Gargalhada é minimalista como os filmes dos autores que me fizeram a cabeça."

Um Homem Que Grita concorreu em Cannes, em maio. Há duas semanas, Haroun recebeu o prêmio Humanidade, da Mostra. Ele ficou impressionado com São Paulo - com a arquitetura da cidade, com seu ritmo frenético, mas também com as dezenas de crianças pedintes em cada semáforo. "Na África, as crianças pertencem à comunidade. Todos somos seus pais e mães, o que estimula o senso de responsabilidade." Mas ele reconhece que, até lá, o egocentrismo e a competitividade estão fazendo as pessoas se preocuparem cada vez menos com as crianças dos outros.

O filme é sobre um ex-campeão de natação que trabalha como salva-vidas, ou guarda piscina, num hotel de luxo na capital do Chade, N"Djamena. Ele vive para aquela função, as pessoas o tratam como "campeão". Quando muda a administração e as funções são terceirizadas, Adam, o protagonista, vê o filho assumir seu lugar. Ele se sente diminuído, o último dos homens, como o protagonista do clássico de Murnau, ao ser destituído de seu uniforme. Comete um ato terrível - entrega o filho às milícias e o jovem é enviado para a frente de combate. Arrependido, corroído pela culpa, o pai tenta resgatá-lo.

Adam tinha de ser ligado à água. "O Chade é um país de muita água. Existem regiões onde o povo é conhecido como da água." Nada disso é explicado, mas fica subentendido. Numa cena, a mulher diz ao marido que ele mudou. Adam responde que continua o mesmo. O mundo à sua volta é que mudou. É o tema de Um Homem Que Grita. O filme não é sobre a guerra, é sobre os que sofrem com ela, os que veem sua vida escapar. Vem somar-se a Minha Terra, África, de Claire Denis - outra guerra, outro testemunho, do ângulo do europeu. "Haroun é muito bom, Um Homem Que Grita é um grande filme", diz a própria Claire.

Trailer. Veja trechos de Um Homem Que Grita

UM HOMEM QUE GRITA

Direção: Mahamat Saleh Haroun. Gênero: Drama (Bélgica-França-República do Chade/2010, 92 min.). Censura: 12 anos.

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